Demência com Corpos de Lewy: o que os sintomas revelam sobre o futuro
Publicado em 29 de abril de 2026
A demência com corpos de Lewy tem sinais específicos que ajudam médicos e famílias a prever o curso da doença. Saber reconhecê-los faz diferença no cuidado e no planejamento.

Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.
Demência com Corpos de Lewy: o que os sintomas revelam sobre o futuro
Se alguém próximo a você começou a ver coisas que não existem, tem variações estranhas de atenção ao longo do dia, ou apresenta tremor e movimentos mais lentos junto com esquecimentos, este texto foi escrito para você.
A demência com corpos de Lewy — chamada pelos médicos de DCL — é a segunda causa mais comum de demência neurodegenerativa. Ela ainda é muito pouco conhecida pelo público geral, frequentemente confundida com Alzheimer, e costuma ser diagnosticada com anos de atraso. Mas quando reconhecida a tempo, permite um cuidado muito mais preciso e seguro.
Neste artigo, explico o que a ciência mais recente diz sobre como identificar, tratar e entender o curso da DCL — com base em quatro publicações científicas de alto impacto, incluindo um estudo americano com 488 pacientes acompanhados por até 26 anos.
Em 30 segundos: o que você precisa saber agora
- A DCL é a segunda demência neurodegenerativa mais comum em pessoas acima de 65 anos, depois do Alzheimer.
- Os quatro sinais que definem a DCL são: alucinações visuais, parkinsonismo (lentidão, rigidez, tremor), distúrbio do sono REM e flutuações cognitivas.
- Um estudo com 488 pacientes mostrou que alucinações visuais e parkinsonismo estão associados a um curso da doença mais grave.
- O tratamento existe, alivia sintomas e pode melhorar qualidade de vida — mas exige cuidado especial com alguns remédios que são perigosos nessa condição.
- O diagnóstico precoce protege: evita medicamentos errados e permite planejar o cuidado com tempo.
O que é demência com corpos de Lewy?
Pense no cérebro como uma rede de estradas interligadas. Nessa rede, os neurônios trocam mensagens usando substâncias chamadas neurotransmissores — como mensageiros que entregam recados entre diferentes cidades.
Na DCL, uma proteína chamada alfa-sinucleína (que normalmente faz parte desse sistema de entrega) começa a se dobrar de forma errada e a se acumular dentro dos neurônios, formando estruturas chamadas corpos de Lewy. É como se os mensageiros ficassem presos dentro das garagens, sem conseguir sair. Com o tempo, os neurônios prejudicados deixam de funcionar — e as estradas da rede cerebral vão se deteriorando.
Essa deterioração afeta várias regiões ao mesmo tempo: áreas responsáveis pela atenção, coordenação motora, sono e percepção visual. Daí vêm os sintomas tão variados e, muitas vezes, surpreendentes da DCL.
Como a DCL aparece no dia a dia?
Imagine um familiar que às vezes parece completamente lúcido — conversa bem, reconhece todos, está bem-humorado — e horas depois parece confuso, olha para um ponto fixo no ar, não responde às perguntas. No dia seguinte, volta ao normal. Esse vai-e-vem espontâneo, sem motivo aparente, é uma das características mais marcantes da DCL.
Ou imagine alguém que começa a ver crianças na sala que não estão lá, ou animais que desaparecem quando olha diretamente. E descreve tudo com clareza, sem estar em pânico — porque, muitas vezes, a pessoa sabe que o que vê não é real, mas as imagens aparecem mesmo assim.
Esses exemplos do dia a dia ilustram dois dos quatro sinais centrais da doença. Os outros dois são: movimentos mais lentos e rígidos (como no Parkinson) e episódios noturnos em que a pessoa age fisicamente os sonhos — grita, soca, chuta enquanto dorme.
Como o diagnóstico é feito?
Quais são os quatro sinais principais da DCL?
Os critérios diagnósticos internacionais, definidos pelo DLB Consortium em 2017 e ainda em uso, estabelecem que o diagnóstico de DCL provável exige demência (declínio cognitivo que atrapalha a vida diária) mais dois ou mais dos seguintes sinais:

1. Flutuações cognitivas: variações espontâneas e marcadas na atenção ou no estado de alerta — não causadas por medicamento, infecção ou horário. A pessoa pode estar ótima de manhã e muito confusa à tarde, sem nenhum fator externo que explique.
2. Alucinações visuais recorrentes: imagens bem formadas, geralmente de pessoas, animais ou crianças, que a pessoa vê com clareza. Diferente do Alzheimer, muitas vezes a pessoa com DCL sabe que o que vê não está realmente lá.
3. Distúrbio comportamental do sono REM (DCR): durante o sono profundo em que sonhamos, o corpo normalmente fica paralítico por segurança. No DCR, essa proteção falha — e a pessoa passa a agir fisicamente os sonhos, com gritos, socos e chutes. Esse sinal pode aparecer anos ou até décadas antes da demência.
4. Parkinsonismo espontâneo: lentidão de movimentos, rigidez muscular ou tremor em repouso — que surgem sem uso de remédios que bloqueiem a dopamina.
Além dos sinais clínicos, exames como a cintilografia do transportador de dopamina (DaTScan), a cintilografia cardíaca com MIBG e a polissonografia (exame do sono) podem ajudar a confirmar o diagnóstico.
Por que a DCL é confundida com Alzheimer?
Porque ambas causam esquecimentos e confusão. Mas há diferenças importantes. No Alzheimer, o esquecimento é o sintoma central desde o início — a pessoa repete perguntas, perde objetos, esquece conversas recentes. Na DCL, o que se perde primeiro é a atenção e a capacidade de planejar. A memória pode ser menos afetada, especialmente no começo.

Além disso, a DCL traz sinais que o Alzheimer raramente apresenta: alucinações visuais precoces, variações bruscas de lucidez ao longo do dia, distúrbio do sono com movimentos, e sensibilidade grave a certos remédios (antipsicóticos típicos podem causar crises graves em pessoas com DCL).
A DCL é comum no Brasil?
Dados nacionais indicam que a DCL responde por menos de 5% dos casos de demência em estudos comunitários brasileiros, e entre 3,7% e 15% nos centros terciários. Mas esses números provavelmente subestimam a realidade, já que o diagnóstico ainda é muito tardio. No mundo, a DCL representa aproximadamente 25% de todos os casos de demência.
O que os sintomas revelam sobre o prognóstico?
Um estudo publicado em novembro de 2025 na revista Neurology, conduzido pela Mayo Clinic nos Estados Unidos, acompanhou 488 pacientes com DCL provável por até 26 anos. É o maior estudo desse tipo já realizado.
O que o estudo investigou?
Os pesquisadores queriam saber se os quatro sinais centrais da DCL — alucinações visuais, parkinsonismo, flutuações cognitivas e distúrbio do sono REM — influenciam o tempo de sobrevida após o diagnóstico. Até então, essa associação não havia sido investigada de forma sistemática.
O que foi encontrado?
Os resultados foram claros e têm implicações diretas para o cuidado:
Alucinações visuais foram o sinal mais fortemente associado a um curso mais grave. Pacientes que desenvolveram alucinações visuais ao longo da doença tiveram um risco de morte cerca de 3 vezes maior (razão de risco de 3,25, com faixa provável entre 2,46 e 4,29) em comparação aos que não desenvolveram. Quando as alucinações já estavam presentes no momento do diagnóstico, o risco também foi maior, mas em menor magnitude (razão de risco de 1,60, com faixa provável entre 1,18 e 2,16).
Parkinsonismo também se mostrou associado a um curso mais grave — pacientes que desenvolveram sintomas motores ao longo da doença tiveram cerca do dobro do risco (razão de risco de 2,28, faixa provável entre 1,54 e 3,39).
Acúmulo de sinais: quanto mais sinais centrais a pessoa desenvolveu, pior o prognóstico. Pacientes com todos os quatro sinais tiveram um risco de morte 3,5 vezes maior do que aqueles com apenas dois sinais (razão de risco de 3,57, faixa provável entre 2,66 e 4,80). E 3 vezes maior comparados a quem tinha três sinais.
O distúrbio do sono REM não se associou ao prognóstico — provavelmente porque é um sinal muito precoce, que aparece antes de a doença avançar, e não reflete a gravidade posterior.
Sexo não influenciou a sobrevida: homens e mulheres tiveram cursos semelhantes após o diagnóstico, apesar de apresentarem padrões diferentes de sintomas (homens têm mais distúrbio do sono; mulheres, mais alucinações visuais).
O que esses números significam na prática?
Na prática, isso significa que os quatro sinais centrais da DCL não são apenas ferramentas de diagnóstico — eles também são ferramentas de prognóstico. Um paciente com alucinações visuais precoces e parkinsonismo merece um plano de cuidado mais intensivo, com discussão antecipada sobre suporte, medicamentos e planejamento familiar.
Não se trata de catastrofizar. Trata-se de planejar com honestidade.
Como a DCL é tratada?
Não existe cura para a DCL. Mas existem tratamentos que aliviam sintomas significativos e podem melhorar qualidade de vida — tanto para a pessoa com a doença quanto para quem cuida.
Para os sintomas cognitivos
Os inibidores da colinesterase (donepezila, rivastigmina) são o tratamento de primeira linha para os sintomas cognitivos na DCL. Meta-análises mostram que eles melhoram atenção, função global e atividades do dia a dia. Mesmo quando não há melhora visível, eles tendem a reduzir a velocidade da piora. A rivastigmina transdérmica (adesivo) também tem evidência de melhora das alucinações visuais.
A memantina pode ser usada como complemento ou quando os inibidores da colinesterase não são tolerados, com perfil de segurança favorável na DCL.
Para as alucinações visuais
A primeira linha de tratamento são os próprios inibidores da colinesterase, que também ajudam nesse domínio. Quando insuficientes, o manejo é delicado: os antipsicóticos comuns (como haloperidol) são perigosos na DCL e podem causar reações graves. A quetiapina em dose baixa é mais segura, mas sua eficácia na DCL ainda é limitada pelos estudos disponíveis. A clozapina tem evidência em psicose do Parkinson, mas não foi estudada especificamente na DCL.
Novas medicações serotonérgicas (como a pimavanserin) surgem como alternativas promissoras, mas ainda precisam de estudos específicos para DCL.
Para o parkinsonismo
O tratamento dos sintomas motores com levodopa pode ser tentado em doses baixas, com aumento gradual — mas a resposta tende a ser menor do que na doença de Parkinson clássica, e há risco de piora das alucinações. Agonistas dopaminérgicos devem ser evitados na DCL.
O estudo da Mayo Clinic mostrou um dado interessante: pacientes que usaram medicação dopaminérgica tiveram maior duração da doença do que os que não usaram. Isso pode indicar que tratar o parkinsonismo contribui para melhores desfechos — mas o dado deve ser interpretado com cautela, pois pode refletir viés: quem tem parkinsonismo leve o suficiente para ser tratado pode ter uma doença menos agressiva desde o início.
Para o distúrbio do sono REM
A melatonina (2 a 12 mg) é a primeira opção, com melhor perfil de segurança. O clonazepam em dose baixa (0,5 a 2 mg) também é eficaz, mas pode causar sedação e piorar cognição, especialmente em idosos. A rivastigmina transdérmica tem evidência de melhora do sono REM em DCL.
Antes de qualquer medicação, é essencial afastar a apneia do sono — que pode mimetizar o distúrbio do sono REM e piora o quadro quando presente.
Para os sintomas autonômicos
Tontura ao levantar (hipotensão ortostática), incontinência urinária e constipação são comuns. Medidas simples ajudam: aumentar ingestão de água e sal, usar meias de compressão, fracionar as refeições (a hipotensão pós-prandial é frequente na DCL). Quando necessário, medicamentos como midodrina ou fludrocortisona podem ser usados.
O papel da equipe multidisciplinar
A DCL exige cuidado multiprofissional. Fisioterapeuta para prevenção de quedas, fonoaudiólogo para disfagia, terapeuta ocupacional para adaptações no lar, e assistente social para suporte familiar são partes essenciais do cuidado. O cuidador precisa entender a doença para não interpretar mal os sintomas — e merece suporte para lidar com o desgaste emocional.
🧪 Teste rápido
Qual desses sinais, quando presente no início da DCL, indica um curso mais grave da doença, segundo o estudo da Mayo Clinic?
a) Distúrbio do sono REM (agir os sonhos) b) Flutuações leves de atenção c) Alucinações visuais já no diagnóstico d) Esquecimento de nomes
✅ Resposta: c) Alucinações visuais presentes já no momento do diagnóstico foram associadas a maior risco de desfechos mais graves — mesmo comparadas a outros sinais centrais da DCL.
O que observar em casa?
Se alguém da sua família tem DCL ou suspeita dessa condição, observe e anote:
- Variações de lucidez: em que horários a pessoa parece mais confusa? Dura minutos ou horas? Há algo que desencadeia?
- Episódios de sono: a pessoa grita, bate, chuta durante a noite? Ocorre mais na madrugada?
- Alucinações: o que a pessoa descreve ver? Com que frequência? Ela reconhece que não é real?
- Sintomas motores: a caminhada ficou mais lenta? Há dificuldade para levantar de uma cadeira baixa?
- Tontura ao levantar: a pessoa fica tonta ou chega a desmaiar ao se levantar?
- Quedas: quantas quedas ocorreram no último mês? Em que situação?
Anotar esses dados em um caderno ou aplicativo de celular facilita muito a consulta com o neurologista.
O que vale perguntar ao médico?
Leve essas perguntas para a próxima consulta:
- "Os sintomas que estamos vendo se encaixam nos critérios de DCL? Há outros diagnósticos possíveis?"
- "Algum exame de imagem ou de sono pode ajudar a confirmar o diagnóstico?"
- "Há algum remédio que ele/ela usa atualmente que pode ser perigoso nessa condição?"
- "O inibidor da colinesterase está indicado para o caso dele/dela? Qual a expectativa de resposta?"
- "O que pode indicar que a doença está avançando? Quando devo voltar antes da consulta agendada?"
- "Quais os sinais que devem me levar ao pronto-socorro?"
Quando procurar ajuda mais rápido?
Procure atendimento com urgência se:
- A pessoa ficar muito confusa de repente, sem causa aparente (pode ser delirium — em DCL, pode sinalizar infecção ou reação a medicamento)
- Houver rigidez muscular intensa, febre alta ou queda depois de iniciar antipsicótico (pode ser síndrome neuroléptica maligna — emergência médica)
- A pessoa tiver quedas com traumatismo craniano
- Houver piora abrupta do nível de consciência
- As alucinações ficarem muito angustiantes, com risco para segurança
Perguntas frequentes
😰 Tenho medo — é isso que está acontecendo com minha família?
Alguém que vê coisas que não existem tem DCL?
Não necessariamente. Alucinações visuais podem ter outras causas: efeito de medicamentos, infecções, privação de sono, déficit visual grave (Síndrome de Charles Bonnet) e outros tipos de demência. O diagnóstico de DCL exige avaliação completa por neurologista. Não é possível — e não é seguro — diagnosticar por sintoma isolado.
A DCL é uma sentença? A pessoa vai deteriorar rapidamente?
O curso da DCL é variável. Alguns pacientes ficam relativamente estáveis por anos; outros têm progressão mais rápida. O estudo da Mayo Clinic mostrou que o tempo médio desde o início dos sintomas cognitivos até o óbito foi de cerca de 9 anos. Tratamento adequado, cuidado preventivo e boa gestão dos sintomas fazem diferença no conforto e na qualidade de vida — mesmo sem reverter a doença.
Meu pai tem Parkinson há 10 anos e agora está com demência. Isso é DCL?
Quando a demência aparece depois de pelo menos 1 ano de parkinsonismo bem estabelecido, o diagnóstico é de demência da doença de Parkinson (DDP), não DCL. As duas condições têm a mesma base biológica (acúmulo de alfa-sinucleína), mas são classificadas separadamente por causa do momento em que os sintomas cognitivos surgem. O tratamento é muito similar.
🏠 Dia a dia com DCL
A pessoa com DCL pode ficar sozinha?
Depende do estágio e do perfil de sintomas. Nas fases iniciais, com sintomas leves, muitas pessoas mantêm independência razoável. Com o tempo, a necessidade de suporte aumenta — especialmente por causa das quedas, das flutuações de consciência e do risco associado às alucinações. Essa avaliação deve ser feita com o neurologista e o terapeuta ocupacional.
Como lidar com as alucinações do meu familiar?
Em geral, não é recomendável discutir ou tentar "provar" que o que a pessoa vê não existe. Uma abordagem mais acolhedora é validar o sentimento ("entendo que você está assustado/a") sem confirmar a alucinação como real. Se a pessoa não estiver angustiada, muitas vezes não é necessário intervir. Se estiver, converse com o neurologista sobre ajuste de medicação.
A pessoa com DCL pode dirigir?
Em geral, não — mesmo nas fases iniciais. As flutuações de atenção, os déficits visuoespaciais e o risco de alucinações ao volante tornam a direção perigosa. Essa conversa precisa acontecer cedo, com honestidade e compaixão.
💊 Sobre o tratamento
Quais remédios são perigosos na DCL?
Antipsicóticos típicos (como haloperidol) e muitos atípicos podem causar reações graves em pessoas com DCL — incluindo rigidez intensa, sedação profunda, febre e até risco de vida. Antes de qualquer medicamento para agitação, alucinação ou comportamento, o neurologista precisa ser consultado. Esse ponto é crítico e pode ser literalmente uma questão de segurança.
O inibidor da colinesterase realmente funciona?
Sim, há evidência moderada de benefício em cognição, função global e atividades do dia a dia — tanto donepezila quanto rivastigmina. O efeito não é dramático, mas pode ser significativo para a qualidade de vida. Mesmo sem melhora visível, o medicamento pode estar retardando a piora. A avaliação de resposta deve ser feita com o neurologista após alguns meses de uso.
Tem algum tratamento para curar a DCL?
Não existe, até a data de publicação deste artigo, tratamento que cure ou reverta a DCL. Pesquisas com terapias direcionadas à alfa-sinucleína estão em andamento. O foco atual é controlar sintomas, melhorar qualidade de vida e planejar o cuidado de forma antecipada.
🔮 Sobre o futuro
Como saber se a doença está avançando?
Os sinais de progressão incluem: maior frequência e duração das flutuações cognitivas, alucinações mais frequentes ou angustiantes, piora do equilíbrio com mais quedas, dificuldade crescente para engolir, maior dependência para atividades básicas. O neurologista avalia periodicamente com escalas específicas e ajusta o plano de cuidado.
O distúrbio do sono REM que meu marido tem há anos vai se transformar em DCL?
O distúrbio do sono REM isolado é um forte preditor de alfa-sinucleinopatia — mas não significa certeza. Estudos mostram que cerca de 80 a 90% das pessoas com distúrbio do sono REM confirmado por polissonografia desenvolverão alguma doença do espectro (Parkinson, DCL ou atrofia de múltiplos sistemas) ao longo de 10 a 15 anos. Mas isso não é uma condenação — é um alerta para acompanhamento neurológico e adoção de fatores de proteção (exercício, controle de sono, saúde cardiovascular).
✋ O que posso fazer agora?
Onde devo levar meu familiar com suspeita de DCL?
A avaliação ideal é em um neurologista com experiência em demências — de preferência em um serviço de neurologia cognitiva ou distúrbios do movimento. Centros universitários, como o Hospital das Clínicas da FMUSP, têm equipes especializadas. Em São Paulo, o serviço de neurologia cognitiva do HC-FMUSP é uma referência nacional.
Como posso ajudar quem cuida de alguém com DCL?
O cuidador precisa de suporte — e isso não é frescura, é necessidade clínica. Grupos de apoio, psicoterapia, revezamento de cuidado e acesso a informação de qualidade fazem diferença real na saúde e na capacidade de cuidar de quem está doente. Cuidar de si não é abandonar o outro — é uma condição para continuar presente.
O que posso fazer a partir de agora?
✅ Observe
- Anote as variações de comportamento com hora e duração
- Registre episódios de sono agitado ou relatos de ver coisas
- Leve esse diário à próxima consulta neurológica
✅ Pergunte
- Pergunte ao neurologista sobre a lista de remédios que devem ser evitados na DCL
- Pergunte sobre exames de imagem ou sono que possam ajudar no diagnóstico
- Pergunte sobre encaminhamento para fisioterapia e terapia ocupacional
✅ Faça
- Adapte o ambiente doméstico para reduzir risco de quedas (tapetes, escadas, banheiro)
- Mantenha rotina de sono regular — ajuda a reduzir as flutuações
- Estimule atividade física adaptada às capacidades — há evidência de benefício em demências
❌ Não faça
- Não dê antipsicóticos sem orientação neurológica específica para DCL
- Não discuta nem tente "provar" que as alucinações são falsas — pode aumentar a angústia
- Não tome decisões sobre dirigir sem avaliação profissional
📞 Procure ajuda rápida se
- Houver rigidez intensa, febre ou confusão grave após início de novo remédio
- Ocorrer queda com traumatismo na cabeça
- A pessoa ficar irresponsiva ou muito difícil de acordar
⚕️ IMPORTANTE
Este conteúdo tem finalidade educativa e resume evidências científicas atualizadas. Ele não substitui a consulta com um médico neurologista. Cada pessoa com DCL tem um perfil único de sintomas, comorbidades e necessidades — e o plano de cuidado deve ser individualizado. Não inicie, altere ou interrompa medicamentos sem orientação médica. Se você tem dúvidas sobre sintomas, procure avaliação profissional.
O que este conteúdo NÃO prova
- Que todo paciente com DCL e alucinações visuais terá obrigatoriamente um curso mais grave — o estudo mostrou associação estatística em uma coorte específica, não uma regra individual.
- Que o tratamento com levodopa prolonga a vida na DCL — o dado do estudo pode refletir viés de seleção (quem recebeu dopaminérgico pode ter parkinsonismo mais leve, não mais grave).
- Que o sexo não importa no cuidado — homens e mulheres apresentam padrões diferentes de sintomas, o que deve ser considerado na avaliação clínica.
- Que esses dados se aplicam diretamente à população brasileira — a coorte da Mayo Clinic é predominantemente de ascendência europeia, em centro terciário nos EUA.
- Que o diagnóstico de DCL pode ser feito sem avaliação neurológica especializada — os critérios exigem exclusão de outras causas e, muitas vezes, exames complementares específicos.
Referência científica:
MCCARTER, S. J. et al. Core clinical features associated with survival in patients with dementia with Lewy bodies. Neurology, Rochester, v. 105, n. 9, p. e214197, nov. 2025. DOI: 10.1212/WNL.0000000000214197.
MCKEITH, I. G. et al. Diagnosis and management of dementia with Lewy bodies: fourth consensus report of the DLB Consortium. Neurology, v. 89, n. 1, p. 88-100, jul. 2017. DOI: 10.1212/WNL.0000000000004058.
PARMERA, J. B. et al. Diagnosis and management of Parkinson's disease dementia and dementia with Lewy bodies: recommendations of the Scientific Department of Cognitive Neurology and Aging of the Brazilian Academy of Neurology. Dementia & Neuropsychologia, São Paulo, v. 16, n. 3 Suppl. 1, p. 69-82, set. 2022. DOI: 10.1590/1980-5764-DN-2022-S105EN.
FULLAM, S. et al. Dementia with Lewy bodies: a practical guide to clinical diagnosis and management. Practical Neurology, Dublin, v. 26, p. 4-16, 2026. DOI: 10.1136/pn-2025-004745.
✍️ Dr. Thiago G. Guimarães Médico Neurologista | CRM-SP 178.347 Especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética Hospital das Clínicas da FMUSP
📍 Consultório: Rua Cristiano Viana, 328 – Conj. 201 – Pinheiros, São Paulo/SP 🎬 YouTube: youtube.com/@DrThiagoGGuimaraes 📸 Instagram: @dr.thiagogguimaraes.neuro 🌐 Site: drthiagoguimaraesneuro.com
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