Tremor essencial: o que mudou entre os reviews da MDS de 2019 e 2026 sobre os remédios
Publicado em 14 de abril de 2026
Os reviews da MDS de 2019 e 2026 sobre tremor essencial chegam a uma mensagem importante: alguns remédios continuam sendo usados na prática, mas a confiança científica neles ficou mais cautelosa quando a análise metodológica ficou mais rigorosa.

Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.
Tremor essencial: o que mudou entre os reviews da MDS de 2019 e 2026 sobre os remédios
Resposta curta
Se você ou alguém da sua família tem tremor essencial, a mensagem principal é esta: os remédios mais usados, como propranolol, primidona e topiramato, continuam fazendo sentido na prática para algumas pessoas, mas o review mais novo da MDS, publicado em 2026, ficou bem mais cauteloso ao dizer o quanto a ciência realmente prova sobre eles.
Em 2019, a MDS considerou propranolol, primidona e topiramato em doses acima de 200 mg/dia como opções “clinicamente úteis”. Já em 2026, usando um método mais rigoroso e exigindo seguimento mínimo de 4 semanas, a conclusão foi que há evidência insuficiente para apoiar com confiança a eficácia de qualquer medicação disponível, não porque elas “não funcionem”, mas porque os estudos antigos eram pequenos, curtos e com muitas limitações metodológicas.
Na prática, isso muda mais a força da certeza científica do que a vida real de forma brusca. Não significa que os tratamentos devam ser abandonados. Significa que a conversa com o neurologista precisa ser mais honesta: o objetivo costuma ser reduzir a incapacidade causada pelo tremor, e não “zerar” o tremor; além disso, a escolha depende do quanto o tremor atrapalha, do perfil de efeitos colaterais, da idade, de outras doenças e da tolerância de cada pessoa.
Em 30 segundos
O review da MDS de 2019 foi mais favorável aos remédios clássicos para tremor essencial. O de 2026 revisou os dados com um filtro metodológico mais duro, incorporou a abordagem GRADE e concluiu que os estudos existentes ainda são fracos demais para permitir recomendações confiantes para qualquer remédio. Isso não prova que os remédios sejam inúteis. Prova, sobretudo, que precisamos de estudos melhores.
O que importa de verdade
Mensagem principal 1
- Em 1 frase: o review de 2026 não “derrubou” os remédios do tremor essencial; ele mostrou que a base científica deles é menos sólida do que parecia.
- Por que isso importa: isso evita expectativas irreais e ajuda a tomar decisões mais honestas.
- A nuance: vários estudos ainda mostraram melhora de tremor com propranolol, primidona, topiramato e toxina botulínica tipo A, mas a qualidade desses estudos limitou a confiança nas conclusões.
Mensagem principal 2
- Em 1 frase: em 2019, propranolol, primidona e topiramato acima de 200 mg/dia foram considerados clinicamente úteis para tremor de membros.
- Por que isso importa: são justamente as opções mais lembradas na prática.
- A nuance: essa conclusão veio de um review que aceitava estudos mais curtos e usava uma metodologia anterior.
Mensagem principal 3
- Em 1 frase: a melhor pergunta não é “qual remédio cura?”, e sim “qual opção pode ajudar mais, com menos efeitos colaterais, no meu caso?”.
- Por que isso importa: o tratamento do tremor essencial é individual e focado em função.
- A nuance: o review de 2026 reforça a importância de decisão compartilhada com base em valores do paciente, custo e tolerabilidade.
Para quem este texto é útil
Este texto é útil para:
- pessoas com tremor essencial recém-diagnosticado
- pacientes que usam remédio e acham que o benefício foi parcial
- familiares que querem entender por que ainda existe tanta incerteza
- pessoas pensando em discutir novas opções com o neurologista
O que é isso, em linguagem simples?
Tremor essencial é um tremor que costuma aparecer principalmente quando a pessoa mantém uma postura ou usa as mãos, como ao segurar um copo, escrever, comer ou usar o celular. Em muitos casos, afeta mais as mãos, mas também pode atingir cabeça, voz e outras partes do corpo. O impacto pode ir de leve a bastante limitante no dia a dia.
Uma analogia útil: o problema não é exatamente “fraqueza”, e sim uma espécie de “oscilação involuntária do comando motor”, como se o ajuste fino do movimento ficasse instável.
Como isso aparece no dia a dia?
No cotidiano, o tremor essencial pode atrapalhar:
- assinar o nome
- escrever à mão
- segurar xícara ou talheres
- falar em público se a voz treme
- passar maquiagem
- mexer no celular
- trabalhar em atividades que exigem precisão
Além do tremor em si, ele pode se associar a isolamento social, ansiedade, piora da autoestima e queda de qualidade de vida.
Como os estudos foram feitos?
O review de 2019 reuniu 64 estudos de tratamentos farmacológicos e cirúrgicos. Ele aceitava, entre outros critérios, estudos com pelo menos 2 semanas de tratamento e concluiu que propranolol, primidona e topiramato em doses acima de 200 mg/dia eram clinicamente úteis para tremor de membros. Alprazolam e toxina botulínica tipo A foram considerados possivelmente úteis.
O review de 2026 focou apenas em tratamentos medicamentosos, exigiu seguimento mínimo de 1 mês, aplicou a metodologia GRADE modificada e incluiu 31 ensaios clínicos randomizados avaliando 16 intervenções contra placebo. Os estudos variavam muito: alguns tinham apenas 5 participantes, e a duração foi de 4 a 28 semanas.
Esse detalhe é crucial: o review mais novo foi metodologicamente mais rígido. Então ele não está apenas “olhando os mesmos estudos e mudando de ideia”. Ele está perguntando: “com esse padrão mais moderno de análise, o quanto realmente dá para confiar nesses resultados?”
O que os estudos encontraram?
O que o review de 2019 disse
Em 2019, a MDS concluiu que:
- propranolol foi clinicamente útil
- primidona foi clinicamente útil
- topiramato acima de 200 mg/dia foi clinicamente útil
- alprazolam e toxina botulínica tipo A foram possivelmente úteis
- para tremor de cabeça e voz, havia evidência insuficiente
- para cirurgia, algumas opções como DBS talâmico unilateral e ultrassom focalizado talâmico unilateral foram consideradas possivelmente úteis para tremor de membros
O que o review de 2026 acrescentou
Em 2026, a MDS observou que mais de um ensaio clínico mostrou melhora de gravidade do tremor com:
- propranolol
- primidona
- topiramato
- toxina botulínica tipo A
Também houve achados positivos isolados em estudo único para:
- perampanel
- gabapentina
- flunarizina
Mas o ponto central foi outro: apesar desses sinais de benefício, a certeza da evidência foi considerada baixa ou muito baixa por causa de:
- amostras pequenas
- estudos antigos
- falhas de randomização ou relato
- seguimento curto
- resultados pouco consistentes
- grande imprecisão estatística
Por isso, a tabela-síntese do review de 2026 concluiu “insufficient evidence” para todas as intervenções medicamentosas analisadas, incluindo propranolol, primidona, topiramato, alprazolam e toxina botulínica tipo A.
O que mudou de verdade entre 2019 e 2026?
Mudaram 3 coisas principais.
1) O filtro ficou mais exigente
O review de 2026 passou a exigir pelo menos 4 semanas de seguimento. Isso excluiu estudos mais curtos que tinham sido aceitos antes.
2) A forma de julgar a evidência ficou mais dura
A MDS adotou uma abordagem baseada em GRADE, que penaliza com mais clareza estudos com risco de viés, pouca precisão e inconsistência.
3) A mensagem clínica ficou mais humilde
Em vez de dizer “isso é clinicamente útil”, o review de 2026 preferiu dizer: “há sinais de benefício, mas ainda não há base forte o bastante para apoiar com confiança”.
Isso quer dizer que os remédios não funcionam?
Não. Isso seria uma leitura exagerada.
O review de 2026 deixa claro que o problema central é a qualidade dos estudos, não a prova de ineficácia. Em outras palavras: há remédios que parecem ajudar algumas pessoas, mas a ciência disponível ainda não é boa o bastante para quantificar isso com a segurança ideal.
E os efeitos colaterais?
Essa parte importa muito no consultório.
O review de 2019 já destacava:
- propranolol: bradicardia, cansaço, broncoespasmo em pessoas suscetíveis
- primidona: sedação, sonolência, tontura, mal-estar e a chamada reação tóxica aguda nas primeiras doses
- topiramato: parestesia, perda de apetite, perda de peso e dificuldade de concentração
- alprazolam: sedação e risco ligado a benzodiazepínicos
- toxina botulínica tipo A: fraqueza da mão dependente da dose
O review de 2026 reforçou vários desses pontos, incluindo:
- abandono por efeitos colaterais com primidona
- dificuldade cognitiva, tontura e sedação com topiramato
- fraqueza de mão com toxina botulínica
- sonolência, fadiga, tontura ou efeitos semelhantes em várias medicações estudadas
O que isso muda na prática?
Na prática, muda a forma de conversar, não a necessidade de tratar quando o tremor atrapalha.
Se o tremor é leve
Às vezes não vale a pena medicar. O foco pode ser adaptação, observação e reavaliação.
Se o tremor atrapalha tarefas importantes
Remédio pode ser tentado, desde que a pessoa saiba:
- o benefício costuma ser parcial
- os efeitos colaterais podem limitar a dose
- pode ser necessário testar mais de uma estratégia
Se o tremor é refratário
Ou seja, continua muito incômodo apesar de tentativas razoáveis, pode ser hora de discutir opções não medicamentosas, inclusive procedimentos em casos selecionados.
Exemplo do dia a dia
Imagine uma pessoa que consegue comer sozinha, mas evita restaurantes porque derrama líquidos, sente vergonha e para de sair. O objetivo do tratamento não é necessariamente “sumir com todo o tremor”. Pode ser simplesmente permitir que ela segure melhor um copo e volte a participar da vida social com mais segurança.
Esse é um ponto muito importante: o melhor tratamento é o que melhora função e qualidade de vida, não apenas o número numa escala.
Bloco de checagem simples
Pergunte a si mesmo ou ao familiar:
- o tremor atrapalha escrever, comer ou usar o celular?
- ele está gerando vergonha, isolamento ou ansiedade?
- os efeitos colaterais do remédio atual estão piores do que o benefício?
- o problema é mais de desempenho funcional ou mais de incômodo estético/social?
Essas respostas costumam ajudar muito na consulta.
O que vale perguntar ao médico?
- Meu tremor é compatível mesmo com tremor essencial ou existe outra causa a investigar?
- Vale a pena tratar agora ou observar?
- Qual remédio faz mais sentido no meu perfil?
- Quais efeitos colaterais eu preciso observar?
- Em que prazo dá para avaliar se funcionou?
- Se eu não tolerar a primeira opção, qual costuma ser a alternativa?
- Quando procedimentos entram na conversa?
FAQ
Medo
1) Tremor essencial é uma doença grave?
Nem sempre. Muitas pessoas têm forma leve, mas em outras o impacto funcional e social pode ser grande. Gravidade aqui depende mais do quanto atrapalha a vida do que do nome do diagnóstico.
2) Tremor essencial vira Parkinson?
Não são a mesma doença. Tremor essencial e doença de Parkinson têm mecanismos e características diferentes, embora às vezes a avaliação neuológica seja necessária para diferenciar bem.
Dia a dia
3) Se meu tremor piora no estresse, isso significa que é “emocional”?
Não. Estresse costuma amplificar muitos sintomas neurológicos reais. O fato de piorar com ansiedade não anula o diagnóstico.
4) Vale tratar mesmo se eu ainda consigo fazer as coisas?
Depende. Se o custo em efeitos colaterais for maior que o benefício, nem sempre tratar é a melhor escolha. O ponto central é o quanto o tremor está limitando sua função e sua vida social.
Tratamento
5) Propranolol ainda é uma opção válida?
Sim, continua sendo uma opção importante na prática clínica. O que mudou foi o nível de confiança científica formal do review mais novo, não o fato de ele poder ajudar algumas pessoas.
6) Primidona é boa, mas costuma dar mais efeitos colaterais?
Pode dar. Sonolência, tontura e mal-estar inicial são pontos clássicos. Isso faz com que a introdução precise ser cuidadosa.
7) Topiramato funciona para todo mundo?
Não. Pode ajudar parte dos pacientes, mas também pode causar parestesia, perda de peso e dificuldade de concentração. A tolerabilidade pesa muito.
8) Toxina botulínica serve para qualquer tipo de tremor?
Não exatamente. Pode ajudar em casos selecionados, especialmente dependendo do segmento corporal e do padrão do tremor, mas pode causar fraqueza local.
Futuro
9) Por que ainda existe tanta dúvida científica se esses remédios já são usados há anos?
Porque muitos estudos antigos eram pequenos, curtos e metodologicamente limitados. O review de 2026 deixou isso muito claro.
10) Isso significa que haverá novos tratamentos melhores?
Possivelmente, mas não é garantia. O review de 2026 termina justamente pedindo estudos maiores e melhores para guiar decisões futuras.
Ação
11) Quando devo procurar um neurologista?
Quando o tremor está piorando, atrapalhando tarefas, causando queda de qualidade de vida, ou quando existe dúvida diagnóstica.
12) Quando vale discutir procedimento em vez de remédio?
Quando o tremor é importante, persistente e não respondeu bem a tentativas razoáveis com medicação ou quando os efeitos colaterais impedem dose eficaz.
Checklist de agência
Sinais de alerta
- piora rápida demais
- assimetria muito marcada com outros sintomas neurológicos
- dificuldade de andar, rigidez, lentidão importante ou quedas
- alteração de fala, de força ou de coordenação fora do padrão esperado
- efeito colateral relevante do remédio
Perguntas para levar à consulta
- qual é o objetivo realista do meu tratamento?
- qual remédio tende a ter melhor equilíbrio entre benefício e tolerância no meu caso?
- como vamos medir se funcionou?
- quando considerar mudança de estratégia?
Hábitos e medidas que podem ajudar
- reduzir gatilhos que pioram o tremor quando possível
- observar relação com sono ruim, estresse e cafeína em algumas pessoas
- adaptar utensílios e tarefas quando necessário
- registrar situações em que o tremor piora ou melhora
O que não fazer sozinho
- não aumentar dose por conta própria
- não interromper remédio abruptamente sem orientação
- não assumir que todo tremor é “nervoso”
- não comparar sua resposta com a de outra pessoa como se fosse regra
Quando buscar ajuda urgente
- surgimento súbito de sintomas neurológicos novos
- confusão, fraqueza, alteração de fala ou perda de equilíbrio importante
- reação medicamentosa relevante
O que este estudo/guia NÃO prova
- Não prova que os remédios clássicos para tremor essencial sejam inúteis.
- Não prova que nenhuma pessoa vá melhorar com propranolol, primidona, topiramato ou toxina botulínica.
- Não garante que os resultados de estudos antigos se apliquem igualmente a todas as idades e perfis clínicos.
- Não substitui avaliação individualizada, porque a decisão terapêutica depende de intensidade do tremor, comorbidades, efeitos colaterais e metas do paciente.
- Não responde sozinho à melhor sequência de tratamento para cada caso.
⚕️ IMPORTANTE
• Este conteúdo resume estudos científicos e não substitui consulta médica.
• Se você tem sintomas ou dúvidas, converse com um profissional de saúde.
• Não interrompa ou inicie medicamentos por conta própria.
• Cada pessoa é única — o que vale para o grupo dos estudos pode não valer para você.
FERREIRA, Joaquim J. et al. MDS evidence-based review of treatments for essential tremor. Movement Disorders, v. 34, n. 7, p. 950-958, 2019. DOI: 10.1002/mds.27700.
DASH, Deepa et al. Update on medical treatments for essential tremor: an International Parkinson and Movement Disorder Society evidence-based medicine review. Movement Disorders, v. 41, n. 4, p. 815-825, 2026. DOI: 10.1002/mds.70184.
✍️ Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347
Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética
Hospital das Clínicas da FMUSP
📍 Consultório em Pinheiros, São Paulo/SP
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