HDL2: a doença genética que pode parecer Huntington
HDL2 é uma doença genética rara causada por uma expansão no gene JPH3. Pode provocar movimentos involuntários, alterações do pensamento e mudanças de comportamento muito semelhantes às da doença de Huntington, mas o diagnóstico depende de uma investigação genética específica.
Publicado em 6 de outubro de 2026
Entenda a HDL2, seus sintomas, diagnóstico genético e cuidados, a partir de um caso acompanhado pelo Dr. Thiago e publicado na Neurology.


Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Graduado em Medicina pela UPE, com residência em Neurologia no HC-FMUSP e formação especializada em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.
O que é HDL2 e por que ela pode ser confundida com Huntington?
HDL2 é uma doença genética rara que pode causar movimentos involuntários, mudanças de comportamento e dificuldades de memória e raciocínio. A sigla vem de Huntington disease-like 2, expressão que significa “doença semelhante à de Huntington, tipo 2”.
Essa semelhança pode ser tão grande que os sintomas e a imagem do cérebro não bastam para distinguir as duas doenças. A diferença está na causa genética: Huntington envolve o gene HTT; HDL2 envolve o gene JPH3.
É uma condição progressiva, que exige acompanhamento. Entretanto, ler sobre HDL2 ou reconhecer um sintoma isolado não significa ter a doença. Alterações semelhantes podem ter outras causas, e a investigação depende do conjunto da história, do exame e dos testes apropriados.
Neste artigo, explico a HDL2 a partir de um caso que acompanhei e publiquei com colegas na revista Neurology, em 2022. A experiência mostra por que reconhecer uma apresentação incomum pode ajudar a direcionar a investigação. Também esclareço o que sabemos sobre cuidados e herança, sem transformar um caso individual em previsão para outras famílias.
Em poucos pontos
- HDL2 e Huntington podem se parecer, mas são doenças geneticamente diferentes.
- A avaliação precisa considerar movimento, pensamento, comportamento e autonomia.
- O diagnóstico de HDL2 exige pesquisa da expansão no gene JPH3.
- Existem cuidados para os sintomas, embora ainda não haja tratamento comprovado capaz de interromper a doença.
- O aconselhamento genético ajuda a família a compreender riscos e decidir sobre testes.
Um caso que acompanhei e publiquei na Neurology
A paciente descrita na publicação começou a apresentar movimentos involuntários nas mãos na vida adulta. Com o tempo, esses movimentos se espalharam e surgiram dificuldades para caminhar. Mais adiante, apareceram apatia importante e episódios de alucinações auditivas, isto é, percepção de sons sem uma fonte externa correspondente.
A história familiar também chamou atenção: havia parentes em diferentes gerações com manifestações semelhantes. Isso reforçava a possibilidade de uma condição hereditária, embora a história familiar, sozinha, não definisse qual doença estava envolvida.
No exame, observamos coreia, movimentos involuntários irregulares, e uma alteração incomum da marcha associada à distonia, contrações musculares que produzem posturas ou movimentos anormais.
A paciente caminhava com apoio nas pontas dos pés, pernas relativamente rígidas e pequenos saltos. Esse padrão é chamado de hobby horse gait na literatura médica. Naquele exame, caminhar para trás melhorou a marcha.
Esse detalhe era uma observação clínica, não uma recomendação de exercício. Caminhar para trás sem supervisão pode causar quedas.
A tomografia mostrou discreta redução de volume dos núcleos caudados, estruturas profundas do cérebro envolvidas em circuitos de movimento e comportamento. A investigação também identificou acantócitos, glóbulos vermelhos com formato irregular. Esse achado não é obrigatório nem exclusivo de HDL2.
A confirmação veio do teste genético, que identificou 46 repetições no gene JPH3. O relato documentou que esse padrão incomum de marcha também pode ocorrer em HDL2. Não mostrou que todas as pessoas com HDL2 terão essa marcha, nem que ela permita identificar a doença sem outros exames.
O que muda no gene JPH3?
O DNA contém instruções para o funcionamento das células. Em algumas regiões, pequenas sequências se repetem naturalmente. Na HDL2, há uma expansão: uma dessas sequências no gene JPH3 se repete mais vezes do que o esperado.
O laudo pode usar a expressão CTG/CAG. São formas de descrever a sequência conforme a orientação em que o DNA é analisado. Para pacientes e familiares, a questão principal é entender o tamanho da expansão e o significado atribuído a ela no contexto clínico.
| Número de repetições em JPH3 | Interpretação habitual |
|---|---|
| 6 a 28 | Faixa considerada normal. |
| 29 a 39 | Significado incerto; não confirma HDL2 por si só. |
| 40 ou mais | Faixa considerada causadora de HDL2, com interpretação clínica e aconselhamento genético. |
Mesmo na faixa considerada causadora da doença, o número não prevê sozinho quando os sintomas começarão ou como será a evolução. Perto do limite inferior, a probabilidade de manifestação ao longo da vida ainda não está bem quantificada. Há descrição de uma pessoa com 44 repetições sem sinais claros da doença aos 65 anos.
Em grupos estudados, expansões maiores se associam a início mais precoce. Essa relação não funciona como uma calculadora individual de idade de início ou de gravidade.
Huntington e HDL2 podem ter manifestações muito parecidas. A investigação genética distingue as causas.
Por que a ancestralidade importa no Brasil?
Os casos bem estabelecidos na literatura estão associados a ancestralidade africana conhecida ou provável, às vezes distante. Isso é relevante no Brasil, onde a história familiar pode reunir origens diversas.
Cor da pele e autodeclaração racial não são testes genéticos. Não reconhecer ancestralidade africana na família não basta para excluir a hipótese quando o quadro clínico é compatível.
Quais sintomas podem aparecer no dia a dia?
As manifestações variam. Algumas pessoas começam com alterações de movimento; outras, com mudanças de comportamento ou dificuldades para organizar tarefas e pensar com agilidade.
Movimentos involuntários, rigidez e dificuldade para caminhar
A coreia pode dar a impressão de inquietação: mãos, rosto, tronco ou pernas fazem movimentos irregulares que a pessoa não escolheu realizar.
Também podem aparecer distonia, lentidão dos movimentos, rigidez, alterações de equilíbrio e dificuldade para falar com clareza. Lentidão e rigidez formam parte do chamado parkinsonismo, um conjunto de sinais que pode ocorrer em várias doenças e não significa necessariamente doença de Parkinson.
A coreia não precisa ser o sintoma dominante. Algumas apresentações, inclusive em pessoas com expansões maiores, têm mais rigidez, lentidão e distonia.
Pensamento, memória e autonomia
A pessoa pode precisar de mais tempo para responder, perder a facilidade para planejar atividades ou ter dificuldade para acompanhar conversas e lidar com dinheiro e medicamentos.
O comprometimento não se resume à memória. Atenção, organização e tomada de decisões também podem mudar. Com a progressão, algumas pessoas desenvolvem perda cognitiva importante, com necessidade crescente de ajuda.
Humor e comportamento
Depressão, ansiedade, irritabilidade e apatia podem fazer parte do quadro. Apatia é uma redução da iniciativa e da motivação; não deve ser interpretada automaticamente como preguiça ou falta de interesse pela família.
Em alguns casos, surgem agressividade, mudanças de personalidade ou alucinações. Sintomas psiquiátricos podem aparecer antes dos movimentos anormais. Ainda assim, depressão ou ansiedade isoladas são muito comuns e não justificam presumir HDL2.
A avaliação de HDL2 precisa considerar as três áreas. Nem toda pessoa apresenta todos os sintomas.
Como o diagnóstico é investigado?
O neurologista organiza a idade de início, a sequência dos sintomas, os medicamentos utilizados e a história familiar. Examinar parentesco e manifestações em diferentes gerações pode ajudar, mas a ausência de familiares reconhecidamente afetados não encerra a investigação.
Quando há um quadro semelhante a Huntington, o médico pode pesquisar a expansão no gene HTT. Se esse teste for negativo, isso não significa que os sintomas não tenham uma causa genética. HDL2 é uma das possibilidades a considerar, junto a outras doenças, conforme o caso.
O teste para HDL2 precisa pesquisar a expansão no gene JPH3. Não basta que um exame seja chamado de “teste genético completo”: é necessário verificar quais alterações ele consegue detectar.
Ressonância ou tomografia podem revelar redução de volume em determinadas estruturas cerebrais. Porém, os achados podem se parecer com os de Huntington e não substituem a confirmação molecular.
A avaliação em neurogenética ajuda a relacionar sintomas, história familiar e escolha do exame, além de interpretar resultados incertos.
Um teste negativo para HTT pode levar à investigação de outras causas. A sequência dos exames depende da avaliação clínica.
O que os estudos acrescentam ao caso publicado?
Nosso artigo é um relato de uma paciente, voltado a documentar uma manifestação clínica incomum. Ele tem um propósito diferente dos estudos que avaliam grupos de pessoas ou reúnem publicações sobre HDL2.
Um estudo brasileiro publicado em 2025 avaliou 33 pessoas com diagnóstico genético confirmado. A mediana do atraso até o diagnóstico foi de 4,5 anos: esse é o valor central do grupo, não o tempo esperado para qualquer paciente.
O estudo também identificou carga relevante de fadiga, apatia e depressão, além da associação entre expansões maiores e início mais precoce. Por ser pequeno e observacional, não permite prever a evolução de uma pessoa nem demonstrar eficácia de tratamento.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 reuniu 36 estudos que relataram 109 pessoas com HDL2, dentro do período pesquisado. Esse número não representa todas as pessoas com a doença no mundo. A revisão encontrou pouca informação sobre apoio às famílias e experiências de aconselhamento genético.
O conjunto reforça a necessidade de reconhecer manifestações variadas e cuidar de aspectos que vão além dos movimentos involuntários.
Existe tratamento para HDL2?
Ainda não há tratamento comprovado capaz de interromper a progressão da HDL2. Existem, porém, medidas para aliviar sintomas, reduzir riscos e apoiar atividades do dia a dia.
Grande parte das escolhas de medicamentos se baseia em experiência clínica e em estudos de Huntington. Usar informação de uma doença semelhante pode ajudar, mas não equivale a ter a mesma eficácia demonstrada em HDL2.
Medicamentos: o objetivo é melhorar a função
Tetrabenazina e deutetrabenazina são exemplos de medicamentos que podem ser considerados para coreia. A valbenazina também foi estudada em Huntington. Esses resultados não comprovam automaticamente o mesmo benefício em HDL2.
A indicação brasileira da deutetrabenazina para coreia associada a Huntington não deve ser confundida com uma indicação específica para HDL2. Na HDL2, seu uso exige decisão individual e discussão sobre essa limitação da evidência.
Medicamentos que reduzem movimentos podem causar sonolência ou agravar lentidão, rigidez e alterações de humor. Por isso, a decisão considera quanto a coreia realmente prejudica alimentação, marcha, sono, segurança e conforto.
Depressão, ansiedade, insônia e alterações de comportamento também podem receber tratamento. A seleção depende do conjunto dos sintomas e dos riscos, sem uma receita única para todas as pessoas.
Menos coreia nem sempre significa melhora
Uma pessoa pode passar a se mexer menos e, ao mesmo tempo, caminhar com mais dificuldade ou precisar de mais ajuda. Isso pode ocorrer pela evolução para maior rigidez e lentidão ou por efeitos de medicamentos.
O acompanhamento não deve medir apenas a quantidade de movimentos involuntários. Deve avaliar o que a pessoa consegue fazer, como se alimenta, como se comunica e quanto apoio precisa.
Reabilitação, alimentação e apoio à família
| Necessidade | Como o cuidado pode ajudar |
|---|---|
| Marcha, equilíbrio e quedas | Fisioterapia e adaptações do ambiente, conforme a avaliação funcional. |
| Fala e deglutição | Fonoaudiologia para avaliar comunicação, engasgos e segurança ao engolir. |
| Perda de peso | Nutrição e investigação das dificuldades para comer e manter a ingestão. |
| Organização das atividades | Terapia ocupacional e rotinas ajustadas à capacidade da pessoa. |
| Humor, comportamento e sobrecarga | Apoio psicológico, avaliação psiquiátrica quando indicada e suporte aos cuidadores. |
Quando há distonia localizada e incômoda, tratamentos específicos podem ser considerados. A página sobre distonias explica esse tipo de alteração do movimento.
O cuidado busca aliviar sintomas e apoiar a vida diária. Sua necessidade não depende apenas da intensidade da coreia.
Como a doença evolui? É possível prever o futuro?
A HDL2 é progressiva, mas o ritmo e a combinação de manifestações variam. Ao longo do tempo, podem aumentar as dificuldades para caminhar, pensar, falar, engolir e realizar atividades sem ajuda.
As estimativas de duração da doença vêm de grupos pequenos. Há relatos de pessoas vivendo mais de 20 anos após o início dos sintomas. Por isso, o diagnóstico não deve ser convertido em um prazo individual de vida.
O número de repetições também não determina sozinho a velocidade da progressão. A avaliação periódica de autonomia, nutrição, deglutição, saúde mental e mobilidade oferece informação mais útil para planejar o cuidado atual.
E as pesquisas de novos tratamentos para Huntington?
Algumas estratégias experimentais de Huntington procuram reduzir a produção de uma proteína ligada ao gene HTT. A HDL2 envolve outro gene, JPH3. Portanto, não é possível presumir que uma terapia direcionada a HTT também trate HDL2.
Os mecanismos de HDL2 ainda estão em investigação. Alterações na função de uma proteína, no RNA, molécula que participa da leitura das instruções genéticas, e na produção de proteínas potencialmente tóxicas são possibilidades estudadas. Essas hipóteses ajudam a orientar pesquisa, mas não representam tratamentos disponíveis ou benefícios clínicos comprovados.
O que o diagnóstico significa para os filhos e outros familiares?
A herança é chamada de autossômica dominante. Quando um dos pais tem uma expansão causadora da doença em uma das duas cópias do gene JPH3, cada filho tem 50% de chance, ou uma chance em duas, de herdar essa expansão.
Esse risco é independente em cada gestação. Não significa que exatamente metade dos filhos de uma família será afetada, nem informa quando alguém desenvolverá sintomas.
O teste de um familiar sem sintomas precisa ser uma escolha informada
Depois de documentar a expansão familiar, adultos sem sintomas podem considerar um teste preditivo, que investiga o risco genético antes de manifestações reconhecidas.
Antes da coleta, o aconselhamento aborda possíveis resultados, impacto emocional, repercussões familiares e apoio após o exame. A pessoa também tem o direito de não saber, sem pressão de parentes ou profissionais.
Em crianças sem sintomas, geralmente se adia o teste para preservar a decisão futura, considerando a ausência de uma intervenção preventiva comprovada para HDL2. Quando a criança apresenta sintomas, a avaliação tem finalidade diagnóstica e precisa ser individualizada.
Para quem deseja planejar uma gestação, pode haver opções de investigação reprodutiva, inclusive testes durante a gravidez ou em embriões em contexto de reprodução assistida. A viabilidade e as implicações devem ser discutidas com equipes especializadas.
Não é correto afirmar que os filhos necessariamente terão sintomas mais cedo ou doença mais grave.
Quando procurar avaliação e quando buscar ajuda urgente?
Procure avaliação quando movimentos involuntários persistentes, mudanças na marcha, dificuldades cognitivas ou alterações de comportamento começarem a interferir na vida diária. História familiar semelhante reforça a necessidade de investigação, mas não estabelece o diagnóstico.
No acompanhamento, avise a equipe sobre engasgos frequentes, perda de peso, quedas, dificuldade para organizar medicamentos, mudanças de humor ou dúvidas sobre segurança para dirigir.
Engasgo com dificuldade para respirar, incapacidade de engolir líquidos, pensamentos de suicídio ou comportamento que coloque alguém em risco exigem atendimento imediato. Confusão súbita ou piora abrupta também precisam de avaliação: não devem ser atribuídas automaticamente à progressão de uma doença crônica.
Perguntas frequentes
HDL2 é a mesma doença que Huntington?
Não. As manifestações podem ser muito semelhantes, mas Huntington está associada ao gene HTT e HDL2 ao gene JPH3. Essa diferença importa para o diagnóstico, o aconselhamento familiar e a interpretação de pesquisas sobre tratamentos.
HDL2 pode aparecer sem movimentos involuntários evidentes?
Sim. Algumas pessoas apresentam principalmente lentidão, rigidez, mudanças de comportamento ou dificuldades cognitivas. A ausência de coreia marcante não exclui a doença.
O teste negativo para Huntington exclui HDL2?
Não. O teste para Huntington pesquisa a expansão no gene HTT. A investigação de HDL2 precisa avaliar a expansão no gene JPH3, conforme a suspeita clínica.
A ressonância confirma o diagnóstico?
Não. A ressonância pode mostrar alterações que ajudam na investigação, mas elas podem se parecer com as de Huntington. A confirmação de HDL2 depende do teste genético interpretado com a história e o exame clínico.
Existe cura ou tratamento para HDL2?
Ainda não há cura nem tratamento comprovado capaz de interromper a progressão da HDL2. Há cuidados e tratamentos para sintomas, incluindo reabilitação, suporte nutricional, saúde mental e medicamentos selecionados individualmente.
Se a coreia diminuiu, a doença melhorou?
Não necessariamente. A redução pode resultar do tratamento, mas também pode acompanhar maior lentidão e rigidez. A avaliação deve considerar marcha, alimentação, comunicação e autonomia.
Qual é o risco para os filhos?
Quando um dos pais tem uma expansão causadora de HDL2 em uma das duas cópias do gene JPH3, cada filho tem 50% de chance de herdar essa expansão. O risco é independente em cada gestação e não prevê quando os sintomas aparecerão.
Familiares sem sintomas devem fazer o teste imediatamente?
Não. Adultos podem considerar o teste preditivo depois de aconselhamento genético e confirmação da alteração familiar, respeitando também o direito de não saber. Em crianças sem sintomas, geralmente se adia a testagem; crianças com sintomas precisam de avaliação diagnóstica individual.
É possível prever a evolução pelo número de repetições?
Não com precisão individual. Expansões maiores se associam, em média, a início mais precoce, mas o número isolado não funciona como um calendário de sintomas, dependência ou sobrevida.
Próximos passos práticos
Para uma consulta, reúna os laudos completos dos testes genéticos e exames de imagem, a lista de medicamentos e uma sequência aproximada de quando cada sintoma começou. Se possível, registre quais familiares apresentaram manifestações semelhantes.
Anote as dificuldades que mais interferem no dia a dia: caminhar, comer, dormir, conversar, administrar dinheiro ou realizar tarefas. Elas ajudam a definir prioridades além do que é mais visível no exame.
Perguntas úteis incluem:
- O teste realizado avaliou HTT, JPH3 ou ambos?
- O resultado confirma uma causa ou ainda tem significado incerto?
- Há sinais de dificuldade para engolir ou de perda de peso?
- Os medicamentos podem estar contribuindo para lentidão, sonolência ou apatia?
- Como acompanhar a autonomia e apoiar os cuidadores?
- Qual é o momento adequado para aconselhamento genético da família?
Não ajuste medicamentos nem faça testes preditivos de parentes por impulso após ler sobre a doença. Essas decisões precisam de avaliação e de espaço para compreender suas consequências.
O que este estudo não prova
O caso que publicamos na Neurology descreve uma paciente e um padrão incomum de marcha. Não determina a frequência desse achado em HDL2, não oferece um teste diagnóstico baseado na caminhada e não avalia a eficácia de um tratamento.
Os estudos complementares envolvem grupos pequenos, geralmente observacionais, com diferenças na duração e na forma de avaliar a doença. Alguns trabalhos descrevem participantes de grupos já estudados anteriormente. Uma revisão desses relatos não equivale a um grande acompanhamento de pessoas independentes ao longo da vida.
Essas limitações impedem previsões precisas sobre sobrevida, início dos sintomas ou resposta a medicamentos. O benefício demonstrado em Huntington também não comprova o mesmo benefício em HDL2.
Informação médica importante
Este texto é educativo e não substitui consulta. Ele não individualiza diagnóstico ou tratamento e não autoriza iniciar, suspender ou ajustar medicamentos sem avaliação profissional.
O teste genético deve ser interpretado junto à história e ao exame clínico. Para familiares sem sintomas, a decisão requer consentimento informado e aconselhamento. Sintomas súbitos, dificuldade respiratória após engasgos e risco de autoagressão exigem atendimento imediato.
Referências científicas
GUIMARÃES, Thiago G. et al. Teaching Video NeuroImage: Peculiar Hobby Horse Gait in Huntington Disease–like 2. Neurology, v. 98, n. 24, p. 1031–1032, 2022. DOI: 10.1212/WNL.0000000000200603.
BOONE, Dayany Leonel et al. Huntington's disease-like 2 patients' profile in a Brazilian cohort. Parkinsonism & Related Disorders, v. 139, art. 108023, 2025. DOI: 10.1016/j.parkreldis.2025.108023.
HOFFMANN, Katharina; WHITE, Stephanie; SEXTON, Adrienne. Current knowledge of Huntington's disease-like 2 genetic testing, clinical presentation, and patient experiences: A systematic review. Journal of Huntington's Disease, v. 15, n. 3, p. 293–316, 2026. DOI: 10.1177/18796397251411109.
KRAUSE, Amanda et al. Huntington disease-like 2: insight into neurodegeneration from an African disease. Nature Reviews Neurology, v. 20, n. 1, p. 36–49, 2024. DOI: 10.1038/s41582-023-00906-y.
Fontes clínicas complementares: Huntington Disease-Like 2 — GeneReviews e registro de deutetrabenazina para coreia de Huntington — Anvisa. Consulta em: 6 out. 2026.
Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347
Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética
Hospital das Clínicas da FMUSP
Consultório em Pinheiros, São Paulo/SP
Conteúdo educativo; não substitui avaliação médica individual.
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