Distúrbio da percepção de verticalidade: quando a régua interna do cérebro fica inclinada

summarizeResposta Rápida

O distúrbio da percepção de verticalidade ocorre quando o cérebro calcula incorretamente a direção da gravidade. A pessoa pode sentir que está reta apesar de estar inclinada, ser puxada para um lado ou apresentar quedas, inclusive sem sentir que o ambiente está girando.

personDr. Thiago G. Guimarães
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Publicado em 16 de julho de 2026

Entenda por que algumas pessoas sentem o corpo ou o ambiente inclinado, como o cérebro percebe o que está reto e quando essa alteração pode indicar um problema neurológico.

Diorama mostrando uma pessoa inclinada dentro de um ambiente enquanto uma linha luminosa representa a vertical real determinada pela gravidade
Dr. Thiago G. Guimarães

Dr. Thiago G. Guimarães

CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.

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Resposta curta

O distúrbio da percepção de verticalidade acontece quando o cérebro calcula de maneira incorreta qual direção corresponde ao “reto” em relação à gravidade.

A pessoa pode sentir que o corpo ou o ambiente está inclinado, ser puxada para um lado ou acreditar que está perfeitamente reta mesmo quando está visivelmente inclinada. Isso aumenta o risco de desequilíbrio e quedas.

Essa alteração não é necessariamente um problema dos olhos. A visão pode estar nítida. O defeito pode estar na forma como o ouvido interno, o tronco encefálico, o cerebelo, o tálamo e o córtex cerebral combinam informações sobre posição e gravidade.

Quando o sintoma surge subitamente, especialmente com dificuldade para andar, visão dupla, fala alterada, fraqueza ou dormência, é preciso considerar a possibilidade de um acidente vascular cerebral e procurar atendimento imediatamente.

Em 30 segundos

  • O cérebro possui uma espécie de “régua interna” que informa o que está reto.
  • Essa régua usa informações do ouvido interno, dos olhos e dos sensores presentes nos músculos e articulações.
  • Uma lesão nessa rede pode inclinar a vertical percebida.
  • A pessoa pode cair para um lado sem apresentar vertigem giratória.
  • O teste da vertical percebida ajuda a identificar a alteração, mas não substitui o exame neurológico nem a neuroimagem.
  • O tratamento depende da causa e costuma incluir reabilitação e prevenção de quedas.

O que importa de verdade

Mensagem 1

  • Em 1 frase: sentir-se inclinado não significa necessariamente que o problema esteja nos olhos.
  • Por que isso importa: exames oftalmológicos normais não excluem uma alteração vestibular ou cerebral.
  • A nuance: doenças dos músculos dos olhos também podem inclinar imagens, por isso o exame precisa diferenciar as causas.

Mensagem 2

  • Em 1 frase: algumas lesões neurológicas alteram a verticalidade sem provocar vertigem.
  • Por que isso importa: ausência de sensação de giro não exclui um problema neurológico relevante.
  • A nuance: desequilíbrio possui muitas causas, e o distúrbio da verticalidade é apenas uma delas.

Mensagem 3

  • Em 1 frase: início súbito com dificuldade para ficar em pé ou caminhar deve ser tratado como sinal de alerta.
  • Por que isso importa: AVCs do tronco encefálico, cerebelo, tálamo ou córtex podem afetar essa função.
  • A nuance: nem toda alteração da verticalidade é causada por AVC, mas essa possibilidade precisa ser excluída rapidamente.

Para quem este texto é útil?

Este conteúdo é especialmente útil para pessoas que:

  • sentem que o chão ou o próprio corpo está inclinado;
  • tendem a cair repetidamente para o mesmo lado;
  • apresentam desequilíbrio após um AVC;
  • foram descritas como portadoras de lateropulsão;
  • empurram o corpo para o lado com o braço ou a perna;
  • apresentam dificuldade para permanecer sentadas ou em pé;
  • possuem sintomas visuais estranhos apesar de exames oftalmológicos normais;
  • participam do cuidado ou da reabilitação de alguém após uma lesão neurológica.

O que é a percepção de verticalidade?

Mesmo de olhos fechados, a maioria das pessoas consegue perceber se está reta, inclinada para um lado ou inclinada para frente.

Essa capacidade é chamada de gravicepção: a percepção da direção da gravidade.

Ela não vem de um único órgão. O cérebro combina continuamente três grupos principais de informações:

  1. Ouvido interno: detecta inclinação, aceleração e movimentos da cabeça.
  2. Visão: informa a posição de portas, paredes, horizonte e outros objetos.
  3. Sensibilidade corporal: informa a posição do tronco, pescoço, pernas, músculos e articulações.

O cérebro compara esses sinais e constrói um modelo interno do espaço. Esse modelo funciona como um nível de bolha ou um fio de prumo invisível.

Quando os sinais não combinam ou uma parte da rede cerebral é lesionada, o cérebro pode recalcular a vertical de forma incorreta.

Infográfico mostrando como ouvido interno, visão, sensibilidade corporal e cérebro trabalham juntos para calcular a direção da gravidade

Vertical visual e vertical postural são a mesma coisa?

Não.

Vertical visual subjetiva

A vertical visual subjetiva é a direção que a pessoa considera vertical ao observar e ajustar uma linha sem referências externas claras.

Ela responde à pergunta:

“Esta linha parece realmente reta para cima?”

Vertical postural subjetiva

A vertical postural subjetiva é a posição em que a pessoa sente que o próprio corpo está reto.

Ela responde à pergunta:

“Nesta posição, eu me sinto sentado ou em pé de forma vertical?”

Essas duas percepções podem estar alteradas juntas, mas também podem se separar.

Uma pessoa pode alinhar corretamente uma linha visual, mas sentir que seu corpo está reto quando, na realidade, está inclinado. Isso é particularmente importante em algumas síndromes observadas depois de um AVC.

Como isso pode aparecer no dia a dia?

A alteração nem sempre é descrita claramente. Algumas pessoas não dizem “minha vertical está alterada”. Elas podem relatar:

  • “Parece que o chão está torto.”
  • “Tenho a impressão de estar sendo puxado para a direita.”
  • “Eu me sinto reto, mas todos dizem que estou inclinado.”
  • “Caio sempre para o mesmo lado.”
  • “Não sinto que tudo gira, mas não consigo ficar em pé.”
  • “Quando tento me corrigir, parece que fico ainda mais torto.”
  • “A parede parece inclinada.”
  • “Depois do AVC, não consigo encontrar o centro do corpo.”

Possíveis manifestações incluem:

Manifestação O que pode acontecer
Inclinação do corpo A pessoa permanece inclinada mesmo tentando ficar reta
Lateropulsão O corpo tende a ser levado ou cair para um lado
Quedas laterais As quedas se repetem predominantemente para a mesma direção
Inclinação da cabeça A cabeça pode permanecer inclinada como tentativa de compensação
Desalinhamento vertical dos olhos Um olho pode ficar discretamente mais alto que o outro
Visão dupla Pode ocorrer quando há envolvimento das vias que coordenam os olhos
Ausência de vertigem A pessoa pode não sentir qualquer sensação de giro
Comportamento de empurrar A pessoa usa o braço ou a perna não paralisados para empurrar o corpo para o lado

Infográfico comparando a vertical real com a vertical percebida e mostrando como a pessoa pode sentir-se reta apesar de estar inclinada

Isso é o mesmo que vertigem?

Não.

Vertigem é a falsa sensação de movimento, frequentemente descrita como giro, balanço ou deslocamento.

O distúrbio da verticalidade é uma alteração da referência usada pelo cérebro para definir o que está reto. Ele pode existir com ou sem vertigem.

Essa diferença é importante porque algumas lesões corticais causadas por AVC alteram a percepção de verticalidade sem provocar a sensação típica de que o ambiente está girando.

A pessoa pode apresentar apenas:

  • instabilidade;
  • inclinação do corpo;
  • dificuldade para caminhar;
  • quedas;
  • sensação de ser puxada para um lado.

O que é a síndrome de pusher?

A síndrome de pusher, também chamada de comportamento de empurrar, pode ocorrer após um AVC.

A pessoa sente que está vertical quando seu corpo está inclinado. Ao tentar colocá-la na posição realmente reta, ela pode sentir que está caindo para o lado oposto.

Como reação, usa o braço ou a perna menos afetados para empurrar o corpo na direção da inclinação.

Esse comportamento não é teimosia, falta de colaboração ou medo irracional. Para o cérebro lesionado, aquela postura inclinada pode realmente parecer correta.

A síndrome está relacionada principalmente a lesões em regiões que integram informações vestibulares e corporais, como o tálamo e a ínsula posterior.

Quais problemas podem alterar a percepção de verticalidade?

O distúrbio da verticalidade não é uma doença única. Ele pode ser produzido por alterações em diferentes pontos da rede.

Local ou condição Exemplos de manifestações
Ouvido interno e nervo vestibular Vertigem, náusea, desequilíbrio e inclinação da vertical percebida
Bulbo e ponte Lateropulsão, alterações oculares, inclinação da cabeça e dificuldade intensa para ficar em pé
Mesencéfalo Alterações da coordenação vertical dos olhos e da cabeça
Cerebelo Desequilíbrio, incoordenação e desvio da vertical percebida
Tálamo Alteração da posição corporal percebida e instabilidade
Ínsula e rede vestibular cortical Desvio da vertical visual, às vezes sem vertigem
AVC Início súbito de uma ou várias dessas manifestações
Síndrome de pusher Sensação de estar reto apesar da inclinação corporal
Paralisia supranuclear progressiva Instabilidade precoce e quedas, muitas vezes para trás
Hidrocefalia de pressão normal Alteração postural, especialmente na direção para frente ou para trás

Infográfico mostrando o trajeto da informação de verticalidade do ouvido interno ao tronco encefálico, tálamo e córtex vestibular

O que os estudos analisaram?

Os documentos reunidos incluem uma revisão clínica e estudos de pacientes com AVC.

O estudo de 1994

Pesquisadores examinaram 71 pessoas com infartos cerebrais de um lado.

Entre 52 pacientes com infartos no território da artéria cerebral média, 23 apresentaram desvio patológico da vertical visual subjetiva. Isso corresponde a aproximadamente 44 em cada 100 pacientes daquele grupo selecionado.

Na maioria, a linha considerada vertical estava inclinada para o lado oposto à lesão cerebral.

A região de maior sobreposição das lesões foi a parte posterior da ínsula, uma área profunda do cérebro que participa da integração entre visão, equilíbrio e percepção corporal.

Esse número não significa que 44% de todas as pessoas com AVC terão o problema. O estudo avaliou uma população específica e utilizou critérios próprios.

O estudo de 2012

Outro estudo avaliou 54 pessoas com AVC cortical agudo:

  • 22 possuíam lesões no hemisfério esquerdo;
  • 32 possuíam lesões no hemisfério direito;
  • a idade média era de aproximadamente 61 anos;
  • a avaliação ocorreu, em média, menos de uma semana após o AVC.

Os pesquisadores relacionaram cada ponto lesionado na ressonância ao grau de desvio da vertical.

As áreas mais associadas foram:

  • córtex insular;
  • giro frontal inferior;
  • giro temporal superior;
  • opérculo rolândico;
  • conexões de substância branca entre regiões cerebrais.

Isso reforçou a ideia de que não existe um único “botão da verticalidade”. Existe uma rede distribuída.

A revisão de 2019

A revisão reuniu estudos sobre ouvido interno, tronco encefálico, cerebelo, tálamo e córtex.

Ela concluiu que a vertical visual subjetiva é um sinal sensível de desequilíbrio vestibular unilateral e pode ajudar o neurologista a compreender em qual nível da rede ocorreu a lesão.

O lado da inclinação revela onde está a lesão?

Pode fornecer uma pista, mas não deve ser interpretado isoladamente.

Em termos gerais:

  • lesões do ouvido interno, nervo vestibular ou parte inferior do tronco encefálico tendem a inclinar a vertical para o mesmo lado da lesão;
  • lesões mais altas entre a ponte e o mesencéfalo tendem a produzir inclinação para o lado oposto;
  • lesões no tálamo ou no córtex podem produzir inclinação para qualquer lado, geralmente de menor intensidade.

Isso acontece porque algumas fibras que transportam a informação da gravidade cruzam de lado durante seu trajeto no tronco encefálico.

Essas regras não são absolutas. O médico precisa combinar:

  • lado e intensidade do desvio;
  • movimentos dos olhos;
  • posição da cabeça;
  • direção das quedas;
  • presença de fraqueza ou perda de sensibilidade;
  • sintomas auditivos;
  • resultado da ressonância.

A direção da inclinação não permite que a pessoa localize sozinha sua lesão.

Como o diagnóstico é feito?

O diagnóstico começa pela história clínica.

O médico procura saber:

  • quando os sintomas começaram;
  • se o início foi súbito ou progressivo;
  • para qual lado a pessoa tende a cair;
  • se existe vertigem, visão dupla ou alteração auditiva;
  • se houve fraqueza, dormência, dificuldade para falar ou engolir;
  • quais medicamentos estão sendo usados;
  • se houve AVC, trauma ou infecção recente.

Em seguida, o exame pode avaliar:

  • movimentos dos olhos;
  • alinhamento vertical dos olhos;
  • inclinação da cabeça;
  • postura sentada e em pé;
  • marcha;
  • coordenação;
  • força e sensibilidade;
  • presença de negligência espacial;
  • capacidade de perceber a vertical visual e corporal.

Como a vertical visual subjetiva é medida?

Um dos métodos apresenta uma linha inclinada em um ambiente escuro ou sem referências visuais.

A pessoa deve girar a linha até considerar que ela está exatamente vertical.

Para reduzir erros, recomenda-se:

  • manter a pessoa sentada e com o corpo reto;
  • retirar referências como portas e paredes;
  • iniciar a linha em diferentes posições;
  • repetir o teste entre seis e dez vezes;
  • calcular a média dos resultados.

Em condições padronizadas, valores médios entre aproximadamente −2,5 e +2,5 graus costumam ser considerados dentro da faixa esperada.

Outra opção é o teste do balde, no qual uma linha é apresentada no fundo de um recipiente que pode ser girado.

O teste parece simples, mas fatores como posição da cabeça, pistas visuais, número de tentativas e forma de calcular o resultado podem alterar a interpretação.

Uma versão improvisada em casa não exclui AVC, doença vestibular ou outra condição neurológica.

Infográfico mostrando as etapas da avaliação da vertical visual, a investigação da causa e os princípios da reabilitação

Quais exames podem ser necessários?

A escolha depende do contexto. Podem ser considerados:

  • ressonância magnética do encéfalo;
  • tomografia em situações de urgência;
  • avaliação vestibular;
  • avaliação neuro-otológica;
  • exame neuro-oftalmológico;
  • fotografias do fundo dos olhos para medir torção ocular;
  • testes de audição;
  • posturografia;
  • avaliação fisioterapêutica da postura e da marcha.

Quando os sintomas começam de forma abrupta, a prioridade é excluir uma lesão vascular aguda.

Existe tratamento específico?

Não existe um único medicamento que “recoloque a vertical no lugar”.

O primeiro passo é identificar e tratar a causa.

Exemplos incluem:

  • atendimento agudo e prevenção secundária quando há AVC;
  • tratamento de doenças vestibulares periféricas;
  • controle de fatores que pioram o equilíbrio;
  • revisão de medicamentos que aumentem sonolência ou instabilidade;
  • reabilitação neurológica ou vestibular;
  • medidas de prevenção de quedas.

Os estudos usados como base para este artigo investigaram principalmente anatomia, percepção e diagnóstico. Eles não compararam medicamentos ou programas de fisioterapia.

Por isso, não é possível afirmar que uma técnica única seja superior para todos.

Como funciona a reabilitação?

A reabilitação procura ensinar o cérebro a recalibrar sua referência interna usando informações mais confiáveis.

Dependendo da causa, o programa pode trabalhar:

  • alinhamento do tronco e da cabeça;
  • controle da postura sentada;
  • transferência da cama para a cadeira;
  • apoio simétrico dos pés;
  • percepção do centro do corpo;
  • referências visuais verticais;
  • treino repetido de ficar em pé;
  • marcha com supervisão;
  • integração entre visão, sensibilidade e equilíbrio;
  • estratégias seguras para virar e mudar de direção.

Em pessoas com comportamento de empurrar, simplesmente forçar o corpo para a posição vertical pode aumentar a sensação de queda.

A equipe costuma usar referências visuais, espelhos, feedback e tarefas graduais para ajudar a pessoa a reconhecer a vertical real.

Fisioterapia, terapia ocupacional, neurologia, fisiatria, fonoaudiologia e enfermagem podem participar, conforme as dificuldades presentes.

A alteração costuma melhorar?

Em muitos casos agudos, sim.

A revisão descreve redução do desvio ao longo de semanas em várias situações, como:

  • neurite vestibular;
  • síndrome de Wallenberg;
  • alguns infartos cerebelares;
  • alguns AVCs corticais.

Em determinados grupos, a vertical aproximou-se do normal em cerca de duas a quatro semanas. Nos estudos corticais, também houve pacientes com melhora ao longo de semanas ou meses.

Isso não constitui uma promessa individual.

A recuperação depende de:

  • tamanho e localização da lesão;
  • causa;
  • idade e condições clínicas;
  • existência de outras alterações neurológicas;
  • capacidade de compensação cerebral;
  • acesso e resposta à reabilitação.

Em uma minoria, o desvio pode persistir por meses ou anos.

Como familiares e cuidadores podem ajudar?

A dificuldade não deve ser interpretada como falta de esforço.

Algumas medidas práticas incluem:

  • perguntar à equipe para qual lado existe maior risco de queda;
  • não deixar a pessoa caminhar sozinha quando houver instabilidade;
  • supervisionar banho, transferências e escadas;
  • retirar tapetes soltos e obstáculos;
  • manter iluminação adequada;
  • usar calçados fechados e antiderrapantes;
  • deixar barras de apoio e dispositivos de marcha acessíveis;
  • seguir a técnica de transferência ensinada pela fisioterapia;
  • evitar puxar ou empurrar bruscamente a pessoa;
  • colocar móveis e objetos de referência de modo consistente;
  • comunicar quedas e quase quedas à equipe.

Checagem rápida: há sinais de alerta?

Responda às seguintes perguntas:

  1. O desequilíbrio começou de repente?
  2. A pessoa não consegue permanecer em pé ou caminhar?
  3. Existe visão dupla, fala enrolada ou dificuldade para engolir?
  4. Surgiu fraqueza ou dormência em um lado?
  5. Existe uma dor de cabeça súbita e muito intensa?
  6. A pessoa está sonolenta, confusa ou com consciência alterada?
  7. As quedas começaram após um sintoma neurológico novo?

Uma resposta positiva, especialmente quando o início foi súbito, justifica avaliação médica urgente.

Não tente confirmar a causa com um teste caseiro antes de procurar atendimento.

O que vale perguntar ao médico?

  • Minha dificuldade parece vestibular, cerebelar, sensitiva ou cortical?
  • Existe suspeita de AVC ou outra lesão estrutural?
  • Minha vertical visual, minha vertical corporal ou ambas estão alteradas?
  • Para qual lado tenho maior risco de cair?
  • Há alteração dos movimentos ou do alinhamento dos olhos?
  • Preciso de ressonância ou avaliação vestibular?
  • Qual tipo de reabilitação é mais adequado?
  • Posso caminhar sem supervisão?
  • Preciso usar bengala, andador ou outro dispositivo?
  • Como minha família deve ajudar nas transferências?
  • Quais sinais indicam necessidade de retornar ao pronto-socorro?

FAQ

Medo

Isso significa que estou tendo um AVC?

Nem sempre. Entretanto, uma alteração súbita da postura, da marcha ou da percepção de verticalidade pode ocorrer em AVCs e deve ser avaliada com urgência, principalmente quando há outros sinais neurológicos.

Essa alteração pode provocar quedas graves?

Sim. A pessoa pode cair repetidamente para um lado mesmo sem perceber claramente que está inclinada. Até que o risco seja avaliado, é prudente evitar caminhar sem supervisão.

Posso perder a visão?

O distúrbio da verticalidade não significa necessariamente perda da visão. A acuidade visual pode estar normal. O problema costuma envolver o cálculo cerebral da orientação espacial.

Dia a dia

Por que a pessoa acha que está reta quando todos veem que ela está inclinada?

Porque a referência interna do cérebro está deslocada. A posição inclinada pode ser percebida como verdadeiramente vertical.

É possível ter esse problema sem tontura?

Sim. Algumas lesões, especialmente corticais, podem alterar a verticalidade sem produzir vertigem giratória.

A pessoa está empurrando de propósito?

Geralmente não. Na síndrome de pusher, empurrar é uma resposta à sensação de que o corpo está caindo, mesmo quando ele está sendo colocado na vertical correta.

Tratamento

Existe um remédio para corrigir a percepção?

Não existe um medicamento específico para todas as causas. O tratamento é direcionado à doença responsável e pode ser acompanhado de reabilitação.

A fisioterapia deve começar cedo?

Quando o quadro clínico está estável e a equipe libera, a reabilitação precoce costuma ser importante para postura, transferências, marcha e prevenção de complicações.

Usar espelhos ajuda?

Referências visuais e feedback podem ser úteis em alguns programas. A estratégia precisa ser ajustada porque algumas pessoas respondem melhor a pistas visuais, enquanto outras precisam de maior apoio tátil ou corporal.

Futuro

A verticalidade volta ao normal?

Em muitos casos há melhora com o tempo, mas não existe um prazo igual para todas as pessoas. A causa e a extensão da lesão influenciam o resultado.

Uma alteração persistente significa que não haverá mais recuperação?

Não necessariamente. A recuperação neurológica pode continuar ao longo de meses, embora alterações prolongadas exijam reavaliação do diagnóstico e do programa de reabilitação.

Ação

Posso fazer o teste do balde sozinho?

Não use o teste caseiro para confirmar ou excluir doença. Ele pode gerar falsa segurança ou interpretações erradas.

Quando devo procurar um pronto-socorro?

Procure imediatamente diante de início súbito, incapacidade de caminhar, visão dupla, fala alterada, fraqueza, dormência, dificuldade para engolir, confusão ou dor de cabeça intensa.

Checklist de agência

Sinais de alerta

  • início súbito;
  • incapacidade para ficar em pé;
  • queda repetida para o mesmo lado;
  • visão dupla;
  • fala alterada;
  • dificuldade para engolir;
  • fraqueza ou dormência;
  • confusão ou redução da consciência;
  • dor de cabeça súbita e intensa.

Perguntas para levar à consulta

  • Qual parte do sistema de equilíbrio parece afetada?
  • O quadro pode ter origem vascular?
  • Existe alteração da vertical visual ou corporal?
  • Preciso de neuroimagem?
  • Qual é meu risco atual de queda?
  • Que tipo de reabilitação devo realizar?

Hábitos e medidas de segurança

  • levantar-se lentamente;
  • sentar-se antes de iniciar a marcha;
  • manter iluminação noturna;
  • retirar obstáculos;
  • usar corrimãos;
  • seguir a orientação sobre dispositivos de apoio;
  • manter exercícios apenas dentro do plano prescrito;
  • informar à equipe todas as quedas e quase quedas.

O que não fazer sozinho

  • não testar o equilíbrio em escadas;
  • não caminhar sem apoio quando houver quedas;
  • não dirigir enquanto houver desorientação ou instabilidade relevante;
  • não interromper medicamentos prescritos;
  • não iniciar exercícios vestibulares aleatórios;
  • não usar um teste caseiro para descartar AVC.

Quando procurar ajuda urgente

Procure um serviço de emergência quando os sintomas forem novos e súbitos ou estiverem associados a qualquer outro déficit neurológico.

O que estes estudos NÃO provam

  • Não provam que toda pessoa com sensação de inclinação tenha uma lesão cerebral.
  • Não provam que um teste isolado determine sozinho a causa ou o local da lesão.
  • Não permitem aplicar a proporção encontrada nos estudos de AVC a toda a população.
  • Não demonstram que todas as pessoas terão a mesma direção de inclinação.
  • Não compararam de maneira controlada diferentes medicamentos ou programas de reabilitação.
  • Não garantem recuperação completa ou dentro de um prazo específico.
  • Não validam versões domésticas dos testes como ferramentas para excluir doenças graves.

Bloco de segurança

⚕️ IMPORTANTE
• Este conteúdo resume estudos científicos e não substitui consulta médica.
• Se você tem sintomas ou dúvidas, converse com um profissional de saúde.
• Não interrompa ou inicie medicamentos por conta própria.
• Cada pessoa é única — o que vale para os grupos estudados pode não valer para você.

Referências ABNT

DIETERICH, Marianne; BRANDT, Thomas. Perception of verticality and vestibular disorders of balance and falls. Frontiers in Neurology, v. 10, art. 172, 2019. DOI: 10.3389/fneur.2019.00172.

BRANDT, Thomas; DIETERICH, Marianne; DANEK, Adrian. Vestibular cortex lesions affect the perception of verticality. Annals of Neurology, v. 35, n. 4, p. 403-412, 1994. DOI: 10.1002/ana.410350406.

BAIER, Bernhard et al. Neural correlates of disturbed perception of verticality. Neurology, v. 78, n. 10, p. 728-735, 2012. DOI: 10.1212/WNL.0b013e318248e544.

OLIVEIRA, Henrique Soares Dutra et al. Assessing higher-order visual functions: seeing beyond a flat earth. Dementia & Neuropsychologia, v. 19, e2024206, 2025. DOI: 10.1590/1980-5764-DN-2024-0206.

Assinatura


✍️ Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347
Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética
Hospital das Clínicas da FMUSP

📍 Consultório em Pinheiros, São Paulo/SP
🌐 Site: drthiagoguimaraesneuro.com
🎬 YouTube: @DrThiagoGGuimaraes
📸 Instagram: @dr.thiagogguimaraes.neuro

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica.

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