Tremor ao sorrir: por que o rosto treme? Um caso real de consultório
O tremor ao sorrir pode ser um movimento involuntário focal, chamado tremor do sorriso, que aparece principalmente ao manter um sorriso parcial. O diagnóstico depende do exame neurológico e, em casos selecionados, da eletromiografia. Nem todo tremor facial indica doença de Parkinson, e a evidência sobre tratamento ainda é preliminar.
Publicado em 16 de outubro de 2026
Entenda por que o rosto pode tremer ao sorrir, como a eletromiografia ajuda na investigação e os limites do tratamento com toxina botulínica.


Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Graduado em Medicina pela UPE, com residência em Neurologia no HC-FMUSP e formação especializada em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.
Resposta direta
O tremor que aparece ao sorrir pode ser uma forma rara de movimento involuntário focal, conhecida como tremor do sorriso. Em geral, ele fica mais evidente durante um sorriso parcial ou intermediário e pode diminuir quando a pessoa relaxa o rosto ou abre um sorriso máximo.
Esse padrão não significa, por si só, que exista doença de Parkinson, distonia, ansiedade ou outra doença neurológica progressiva. O diagnóstico depende da observação cuidadosa do movimento, do exame neurológico e, em situações selecionadas, de exames como a eletromiografia.
Este artigo explica como o tremor do sorriso pode se manifestar, como costuma ser investigado e quais são os limites das evidências sobre tratamento. Ele não substitui uma avaliação médica individual.
TL;DR
- O tremor do sorriso é raro e costuma ser desencadeado principalmente pelo sorriso parcial.
- Ele pode aparecer sem tremor em repouso e sem outros sinais neurológicos.
- Nem todo tremor facial ao sorrir significa doença de Parkinson.
- A eletromiografia pode registrar a frequência e os músculos envolvidos, mas não revela necessariamente a causa.
- No caso apresentado, o registro mostrou oscilações bilaterais de 10,5 Hz.
- A toxina botulínica pode ser considerada em situações selecionadas, mas a evidência específica ainda é muito limitada.
- A melhora aproximada de 75% publicada na literatura ocorreu em apenas uma paciente.
- Alterações da língua, fala, mastigação ou deglutição precisam ser avaliadas separadamente.
Por que o rosto pode tremer ao sorrir?
Sorrir parece um gesto simples, mas exige a coordenação de vários músculos pequenos da face. Eles precisam elevar, ampliar e estabilizar os cantos da boca de maneira sincronizada.
Em algumas pessoas, uma combinação específica de posição e intensidade da contração favorece oscilações rápidas e repetidas. O resultado pode parecer uma vibração nas bochechas ou perto dos lábios.
Um padrão descrito na literatura é:
- ausência de tremor com o rosto relaxado;
- pouco ou nenhum tremor durante um sorriso discreto;
- tremor mais evidente no sorriso parcial;
- redução do movimento durante um sorriso máximo.
Esse comportamento dependente da tarefa e da posição ajuda a reconhecer o fenômeno, mas não explica sozinho sua origem.
Um caso real acompanhado no consultório
Acompanhei uma pessoa adulta que procurou avaliação por um tremor rápido, bilateral e relativamente simétrico na face. O movimento aparecia sobretudo ao manter um meio sorriso.
Fora dessa posição, o tremor não era evidente. Quando o sorriso atingia força máxima, o movimento diminuía.
O exame neurológico não mostrou outros sinais motores relevantes. Havia também um movimento da língua durante a protrusão, isto é, quando ela era colocada para fora da boca. Esse movimento apresentava características diferentes e não deveria ser automaticamente interpretado como parte do mesmo tremor facial.
A pessoa relatava ainda sensação de cansaço ao falar ou mastigar por períodos prolongados e queixas relacionadas à deglutição. Avaliações anteriores, incluindo testes para miastenia gravis — doença capaz de provocar fraqueza muscular fatigável —, não haviam demonstrado evidências dessa condição.
Isso não significava que as queixas de deglutição estivessem explicadas pelo tremor. Elas continuavam merecendo avaliação própria.
Como a manifestação facial era bastante específica, foi realizado um estudo eletromiográfico direcionado aos músculos da face e da língua. O registro facial mostrou:
- oscilações regulares com frequência dominante de 10,5 Hz, equivalente a aproximadamente dez oscilações por segundo;
- participação bilateral dos músculos zigomáticos maiores, que ajudam a elevar os cantos da boca;
- ativação sincronizada dos lados direito e esquerdo;
- coativação de músculos com ações opostas, incluindo os depressores dos ângulos da boca;
- aparecimento predominante no sorriso intermediário;
- redução durante a contração máxima.
Não foram identificadas alterações neurogênicas ou miopáticas nos músculos examinados. A eletromiografia confirmou e caracterizou o movimento, mas não revelou, sozinha, sua causa definitiva.
Havia ocorrido uma tentativa anterior de tratamento com propranolol, sem benefício satisfatório. Diante da persistência da queixa, foi proposta uma aplicação focal de toxina botulínica, com planejamento individualizado.
Na data desta publicação, ainda não havia resultado dessa aplicação a relatar. Portanto, este caso não deve ser apresentado como demonstração de sucesso terapêutico.
Para proteger a privacidade, foram omitidos dados de identificação e detalhes pessoais que não contribuíam para o entendimento médico.
O que acontece com os músculos durante o sorriso?
O músculo zigomático maior ajuda a elevar o canto da boca. Outros músculos ampliam, modulam ou se opõem parcialmente ao movimento, permitindo que a expressão seja ajustada com precisão.
Normalmente, esses músculos trabalham de forma coordenada para produzir um gesto contínuo. No tremor do sorriso, determinada faixa de contração parece favorecer uma atividade oscilatória repetida.
Uma maneira simples de imaginar o fenômeno é pensar em três níveis:
- no sorriso leve, a ativação pode não ser suficiente para desencadear o tremor;
- no sorriso parcial, a combinação entre força e posição pode tornar as oscilações visíveis;
- no sorriso máximo, a contração mais intensa pode reduzir ou modificar o tremor.
Isso descreve o padrão observado. Não demonstra um mecanismo cerebral ou muscular único para todas as pessoas.

Por que o exame clínico precisa reproduzir o movimento?
A pessoa pode chegar à consulta sem qualquer tremor em repouso. Se o médico não solicitar a expressão que desencadeia o movimento, a alteração pode passar despercebida.
A avaliação pode comparar:
- rosto em repouso;
- sorriso discreto;
- sorriso parcial;
- sorriso máximo;
- fala;
- mastigação simulada;
- abertura da boca;
- protrusão da língua;
- outras expressões faciais.
O exame também procura posturas anormais, contrações sustentadas, pequenos repuxões, tremores em outras partes do corpo e sinais como rigidez, lentidão ou alterações da marcha.
Na prática do consultório, observar exatamente quando o movimento começa e quando desaparece costuma ser tão importante quanto observar sua aparência. Um vídeo curto feito espontaneamente, preservando a privacidade, também pode ajudar quando o tremor não aparece durante a consulta.
Tremor facial, movimento da língua e dificuldade para engolir são a mesma coisa?
Não necessariamente.
Face, língua, mastigação, fala e deglutição fazem parte de um sistema funcional próximo. Mesmo assim, a presença de sintomas nessas regiões não prova que exista uma única doença responsável por todos eles.
O tremor ou movimento da língua precisa ser examinado em diferentes posições e tarefas. A dificuldade para engolir, a fadiga ao mastigar, as alterações da voz e a necessidade frequente de pigarrear também admitem diferentes explicações.
Dependendo do caso, podem ser consideradas alterações da deglutição, condições otorrinolaringológicas, efeitos de medicamentos, doenças neuromusculares ou outros problemas neurológicos.
No caso apresentado, os exames anteriores não sustentavam o diagnóstico de miastenia gravis. Ainda assim, exames negativos não substituem a reavaliação se os sintomas mudarem, persistirem ou progredirem.

O que a literatura científica encontrou?
As publicações sobre tremor do sorriso são pouco numerosas.
Jacome e Yanez descreveram o fenômeno em 1987. Em 2009, Schwingenschuh e colaboradores relataram duas pessoas com tremor facial bilateral de aproximadamente 9 Hz desencadeado pelo sorriso. Uma delas também apresentava doença de Parkinson, enquanto a outra não tinha outras alterações neurológicas relevantes.
Em 2024, Radmard e colaboradores publicaram uma série de quatro casos. Os movimentos apareciam durante o sorriso parcial, tinham frequência estimada entre 8 e 10 Hz e não eram reproduzidos da mesma maneira pelo sorriso discreto ou máximo. Os autores classificaram o fenômeno como um tremor facial específico de tarefa e posição.
Em 2025, Cavallieri e colaboradores publicaram outro caso de tremor isolado do sorriso.
Um relato publicado na edição de 2026 da revista Movement Disorders Clinical Practice descreveu tremor do sorriso de 7,5 Hz em uma pessoa com tremor essencial. Essa observação amplia as associações possíveis, mas não demonstra que todo tremor do sorriso seja uma forma de tremor essencial.
Em conjunto, esses trabalhos indicam que o fenômeno pode ser reconhecido e medido. Sua causa, frequência na população, evolução de longo prazo e resposta habitual ao tratamento, entretanto, ainda são pouco conhecidas.
O que significa a melhora de 75% com toxina botulínica?
Na série de Radmard e colaboradores, uma das quatro pessoas recebeu toxina botulínica nos músculos risório e levantador do ângulo da boca, bilateralmente.
A primeira aplicação produziu pouco benefício. Depois de um ajuste, os autores relataram redução aproximada de 75% na intensidade do tremor daquela paciente.
Esse resultado:
- não corresponde à média dos quatro casos;
- não representa uma taxa de sucesso de 75%;
- não veio de um estudo controlado;
- não permite prever a resposta de outras pessoas;
- não estabelece quais músculos ou doses seriam apropriados em outro caso.
Trata-se de uma observação individual e preliminar.
Como a eletromiografia pode ajudar?
A eletromiografia registra a atividade elétrica produzida pelos músculos. Quando realizada de forma direcionada e com múltiplos canais, ela pode mostrar:
- quais músculos participam do movimento;
- se os dois lados se ativam de forma sincronizada;
- qual é a frequência predominante das oscilações;
- se músculos com ações opostas estão ativos ao mesmo tempo;
- como o padrão muda entre repouso, sorriso parcial e contração máxima;
- se existem sinais de neuropatia, miopatia ou outros padrões neuromusculares.
No caso apresentado, 10,5 Hz significa que o sinal tinha frequência predominante de aproximadamente dez oscilações por segundo. Esse número não é um marcador exclusivo do tremor do sorriso e, isoladamente, não fecha diagnóstico.
Testes com distração, movimentos rítmicos de outra parte do corpo e mudanças de tarefa podem ajudar no diagnóstico diferencial de tremores funcionais. Entretanto, precisam ser interpretados em conjunto com o exame clínico.
A bateria eletrofisiológica validada por Schwingenschuh e colaboradores em 2016 foi desenvolvida para auxiliar no diagnóstico de tremor funcional. Ela não foi criada especificamente para comprovar a origem do tremor facial desencadeado pelo sorriso.

Quais exames podem ser considerados?
Nem toda pessoa com tremor facial precisa realizar todos os exames disponíveis. A investigação deve ser escolhida de acordo com o padrão do movimento e com os sintomas associados.
Podem ser considerados, conforme a avaliação médica:
- exame neurológico direcionado a diferentes expressões e tarefas faciais;
- registro em vídeo para análise do padrão do movimento;
- eletromiografia dos músculos envolvidos;
- estudos de condução nervosa quando houver suspeita de comprometimento periférico;
- avaliação da deglutição por profissional habilitado;
- avaliação fonoaudiológica ou otorrinolaringológica;
- exames laboratoriais quando houver suspeita de doença metabólica, autoimune ou neuromuscular;
- neuroimagem quando o exame clínico ou a evolução sugerirem uma causa estrutural;
- revisão dos medicamentos em uso.
A frequência do tremor, um vídeo ou uma eletromiografia não devem ser interpretados isoladamente. O resultado precisa responder a uma pergunta clínica concreta.
O que precisa ser diferenciado?
Tremor distônico
Pode ocorrer em uma região afetada por distonia, condição que provoca contrações musculares, torções ou posturas anormais. A presença de coativação muscular, isoladamente, não comprova distonia.
Tremor funcional
É diagnosticado por sinais clínicos positivos, como mudanças características de frequência, distraibilidade ou sincronização com outra tarefa. Não deve ser presumido apenas porque exames estruturais foram normais.
Mioquimia
Produz contrações musculares finas, contínuas ou ondulantes. Seu aspecto e seu registro eletromiográfico costumam diferir de um tremor rítmico de maior deslocamento.
Fasciculações
São contrações breves de pequenas unidades musculares. Em geral, não apresentam o mesmo padrão oscilatório desencadeado por uma posição específica do sorriso.
Mioclonia
Provoca movimentos rápidos, semelhantes a pequenos choques. Pode se repetir, mas costuma apresentar características diferentes de um tremor rítmico.
Outros tremores orofaciais
Tremores relacionados a medicamentos, tremor essencial, parkinsonismo e outras condições também podem envolver a região da boca ou da face. O contexto clínico ajuda a diferenciá-los.
Para uma explicação mais ampla sobre contrações e posturas anormais, consulte a página sobre avaliação das distonias.
Existe tratamento para o tremor do sorriso?
Existem possibilidades de acompanhamento e tratamento, mas nenhuma estratégia foi validada especificamente para todas as pessoas com esse fenômeno raro.
A decisão depende de fatores como:
- intensidade e frequência do tremor;
- constrangimento ou sofrimento provocado;
- interferência na fala, alimentação ou comunicação;
- músculos envolvidos;
- presença de outros sintomas;
- riscos de produzir fraqueza ou assimetria facial;
- preferência da pessoa após uma discussão realista das incertezas.
Medicamentos usados em outros tipos de tremor, como o propranolol, não têm eficácia estabelecida para o tremor do sorriso. A falta de resposta em uma pessoa também não permite prever a resposta de todas as outras.
Não se deve iniciar, suspender ou ajustar medicamentos por conta própria com base na semelhança com um caso descrito na internet.
Toxina botulínica
A toxina botulínica tipo A reduz temporariamente a comunicação entre o nervo e o músculo tratado. Em um tremor focal, o objetivo teórico é diminuir a atividade involuntária de músculos cuidadosamente selecionados.
No rosto, o planejamento exige cautela. Os mesmos músculos relacionados ao tremor participam do sorriso, da fala e de outras funções cotidianas.
Entre os riscos que precisam ser discutidos estão:
- fraqueza local;
- assimetria do sorriso;
- alteração da expressão facial;
- dificuldade para articular palavras;
- impacto sobre mastigação ou deglutição, conforme os músculos tratados.
No caso de consultório que motivou este artigo, a toxina botulínica foi proposta, mas ainda não havia uma resposta pós-aplicação documentada.
A presença de queixas de deglutição reforçava a necessidade de ponderação individual antes de qualquer procedimento.
Quando o tratamento é realizado, o acompanhamento deve avaliar não apenas uma eventual redução do tremor, mas também a simetria facial, a naturalidade do sorriso, a fala e outras funções.
Informações gerais sobre indicações, planejamento e acompanhamento estão disponíveis na página sobre toxina botulínica em neurologia.

Quando procurar avaliação médica?
Uma consulta neurológica é apropriada quando o tremor:
- aparece repetidamente;
- persiste ao longo do tempo;
- causa desconforto ou constrangimento;
- interfere na comunicação;
- surge durante outras tarefas faciais;
- vem acompanhado de tremor nas mãos, língua ou outras partes do corpo;
- muda de intensidade ou padrão;
- aparece junto com rigidez, lentidão, alteração da marcha ou outros sinais neurológicos.
Queixas de mastigação ou deglutição devem ser relatadas separadamente. Elas não devem ser atribuídas automaticamente ao tremor facial.
Perguntas úteis para levar à consulta incluem:
- Em qual expressão o tremor aparece?
- Ele ocorre também ao falar, mastigar ou manter a boca aberta?
- Desaparece quando o rosto relaxa?
- Diminui ou aumenta durante um sorriso máximo?
- Existe movimento na língua?
- Há tremor em outras partes do corpo?
- O padrão mudou com o tempo?
- Quais exames realmente acrescentariam informações ao caso?
Quando procurar atendimento urgente?
Procure atendimento de urgência diante de:
- fraqueza facial súbita;
- alteração súbita da fala;
- dificuldade repentina ou importante para engolir;
- incapacidade de manejar a própria saliva;
- engasgos intensos;
- dificuldade para respirar;
- fraqueza em um braço ou uma perna;
- perda súbita de equilíbrio;
- outros déficits neurológicos de início agudo.
Essas manifestações não correspondem ao padrão habitual de um tremor isolado e precisam de avaliação imediata.
Perguntas frequentes
É normal o rosto tremer quando sorrio?
Pequenas oscilações podem ocorrer em algumas circunstâncias, mas um tremor repetido, claramente desencadeado pelo sorriso e que persiste ou incomoda merece avaliação. O contexto e o padrão do movimento ajudam a diferenciar as causas.
Tremor ao sorrir é sinal de doença de Parkinson?
Não necessariamente. Existem casos de tremor do sorriso em pessoas sem parkinsonismo. Também há descrições em pessoas com outras condições, mas um tremor facial isolado não estabelece o diagnóstico de Parkinson.
O tremor do sorriso é uma distonia?
Ainda não é possível afirmar isso em todos os casos. Alguns autores discutem uma possível relação com distonia, mas o fenômeno também foi descrito sem posturas ou contrações distônicas evidentes.
A eletromiografia confirma a causa do tremor?
A eletromiografia pode confirmar e caracterizar a atividade oscilatória, identificando frequência, músculos envolvidos e sincronização. Sozinha, porém, não determina necessariamente a causa nem o melhor tratamento.
Tremor da língua e dificuldade para engolir são a mesma doença?
Não é possível presumir essa relação. Tremor ou outros movimentos da língua, fadiga ao mastigar e dificuldade para engolir precisam de avaliação própria, mesmo quando coexistem com tremor facial.
A toxina botulínica funciona para tremor ao sorrir?
Há um resultado favorável publicado em uma única paciente. Isso ainda não estabelece eficácia ou segurança para todas as pessoas com esse tremor. A decisão deve considerar os músculos envolvidos e os riscos para a expressão e a função facial.
O propranolol costuma resolver esse tremor?
Não existe evidência suficiente para afirmar isso. A resposta pode variar, e não há tratamento oral padronizado para o tremor do sorriso.
O tremor pode desaparecer ou piorar com o tempo?
A evolução é pouco conhecida porque há poucos casos publicados e acompanhamento limitado. Algumas pessoas permaneceram estáveis; em um dos casos da série de 2024, a intensidade diminuiu espontaneamente. Isso não permite prever a evolução individual.
Um vídeo pode ajudar na consulta?
Pode. Um vídeo curto, feito voluntariamente e preservando a privacidade, pode registrar uma manifestação que não aparece durante a consulta. Não é necessário provocar o tremor repetidamente nem realizar testes caseiros para tentar classificá-lo.
O que este estudo não prova
A série de quatro pacientes publicada por Radmard e colaboradores e os demais relatos disponíveis não estabelecem:
- a causa definitiva do tremor do sorriso;
- sua frequência real na população;
- seu prognóstico de longo prazo;
- uma associação obrigatória com Parkinson, distonia ou tremor essencial;
- um tratamento padrão;
- a eficácia geral da toxina botulínica.
O resultado de aproximadamente 75% com toxina botulínica refere-se a uma única paciente, tratada em músculos específicos, sem grupo comparador e sem um protocolo amplo de acompanhamento.
O registro de 10,5 Hz no caso do consultório caracteriza objetivamente aquele movimento, mas não demonstra que todos os tremores com frequência semelhante tenham a mesma origem.
Também não comprova uma ligação causal entre o tremor facial, o movimento da língua e as queixas de deglutição.
Por fim, a proposta de aplicação de toxina botulínica no caso apresentado não equivale a um resultado terapêutico favorável. Na data deste artigo, ainda não havia resposta pós-aplicação documentada.
Conclusão prática
O tremor que aparece durante um sorriso parcial é raro, mas apresenta um padrão reconhecível. Observar a expressão que o desencadeia, comparar diferentes intensidades do sorriso e pesquisar outros sinais neurológicos são etapas centrais da avaliação.
A eletromiografia pode ajudar a documentar os músculos envolvidos e a frequência do movimento. Ela complementa o exame clínico, mas não substitui sua interpretação.
Quando o tremor persiste, incomoda ou aparece junto com alterações da língua, fala, mastigação ou deglutição, é apropriado procurar avaliação médica. Esses sintomas não devem ser agrupados automaticamente sob uma única explicação.
O tratamento precisa ser individualizado. Para a toxina botulínica, a evidência específica ainda é preliminar, e qualquer possível redução do tremor precisa ser equilibrada com a preservação do sorriso e das funções faciais.
Informação médica importante
Este conteúdo tem finalidade educativa, foi inspirado em um caso de consultório anonimizado e não substitui consulta, exame físico ou diagnóstico individual.
O texto não autoriza iniciar, suspender ou modificar medicamentos nem realizar procedimentos sem avaliação profissional.
Dificuldade súbita ou importante para respirar ou engolir, engasgos com incapacidade de manejar saliva, fraqueza facial aguda, alteração súbita da fala ou outros déficits neurológicos de início recente exigem atendimento de urgência. Sintomas persistentes ou progressivos de deglutição também precisam ser investigados, mesmo quando exames anteriores foram normais.
Referências científicas
-
JACOME, D. E.; YANEZ, G. F. Tremors of the smile. Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry, v. 50, n. 4, p. 489–490, 1987. DOI: 10.1136/jnnp.50.4.489.
-
SCHWINGENSCHUH, P. et al. Tremor on smiling. Movement Disorders, v. 24, n. 10, p. 1542–1545, 2009. DOI: 10.1002/mds.22666.
-
RADMARD, S. et al. A case series of isolated smiling tremor: what is the phenomenology? Movement Disorders Clinical Practice, v. 11, n. 2, p. 171–174, 2024. DOI: 10.1002/mdc3.13938.
-
CAVALLIERI, F. et al. Just smile or not? A case of isolated smiling tremor. Neurological Sciences, v. 46, n. 2, p. 1051–1053, 2025. DOI: 10.1007/s10072-024-07755-7.
-
CHEN, J. C. et al. Smiling tremor in a patient with essential tremor. Movement Disorders Clinical Practice, v. 13, n. 2, p. 560–562, 2026. DOI: 10.1002/mdc3.70349.
-
SCHWINGENSCHUH, P. et al. Validation of “laboratory-supported” criteria for functional (psychogenic) tremor. Movement Disorders, v. 31, n. 4, p. 555–562, 2016. DOI: 10.1002/mds.26525.
Sobre o autor
Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347
Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética
Hospital das Clínicas da FMUSP
Consultório em Pinheiros, São Paulo/SP
Conteúdo educativo; não substitui avaliação médica individual.
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