ISPS25: O Novo Sistema de Classificação do AVC Isquêmico

Especialistas propõem o ISPS25, um novo sistema para classificar as causas do AVC isquêmico. Entenda como ele amplia a investigação diagnóstica e pode mudar a prevenção de novos AVCs.

Dr. Thiago G. Guimarães

Dr. Thiago G. Guimarães

CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.

ISPS25: um novo sistema para descobrir a causa do seu AVC isquêmico

Ilustração de vaso cerebral representando classificação etiológica do AVC isquêmico

Em 30 segundos

Se você ou alguém próximo teve um AVC isquêmico e ficou sem uma explicação clara sobre a causa, este artigo interessa diretamente a você. Um grupo de especialistas dos Estados Unidos e do Canadá publicou na revista Stroke uma proposta de novo sistema de classificação chamado ISPS25 (Ischemic Stroke Phenotyping System 2025).

O que este artigo nao prova?

Quais sao as mensagens principais?

Nível 1 — O ponto principal:
O ISPS25 propõe que os médicos investiguem mais a fundo a causa do AVC isquêmico, usando exames que antes não eram considerados obrigatórios na avaliação inicial.

Nível 2 — O contexto importante:
Sistemas anteriores, como o TOAST, ajudaram muito, mas deixam uma parcela relevante dos pacientes sob o rótulo de AVC criptogênico ou ESUS. O ISPS25 divide a investigação em duas etapas e classifica cada mecanismo como definido, provável ou possível.

Nível 3 — Nuances que valem saber:

Como entender o estudo

Qual e o problema?

Quando uma pessoa tem um AVC isquêmico, descobrir o mecanismo causal é fundamental para tentar evitar outro evento. A prevenção muda conforme a origem do problema: um coágulo vindo do coração exige raciocínio diferente de uma placa aterosclerótica carotídea, de uma doença de pequenos vasos ou de causas menos comuns, como dissecção arterial e síndrome antifosfolípide.

O problema é que os sistemas mais antigos foram criados em uma era com menos recursos diagnósticos. Com isso, muitos pacientes ficam sem uma causa suficientemente convincente, o que dificulta escolher a estratégia preventiva mais específica.

Como o artigo foi feito?

Este não é um estudo com recrutamento de pacientes. Trata-se de um special report com proposta de sistema de classificação construída por especialistas em AVC com base na literatura disponível e na experiência clínica. O objetivo é padronizar a investigação etiológica mínima e oferecer uma linguagem comum para descrever a causa provável do AVC.

O que o artigo propoe?

O ISPS25 organiza a investigação em dois momentos:

FaseO que inclui
Primeiro passeAvaliação clínica, tomografia ou ressonância de crânio, imagem vascular de cabeça e pescoço, eletrocardiograma, ecocardiograma com microbolhas, ao menos 24 horas de monitoramento cardíaco e exames laboratoriais básicos
Segundo passeMonitoramento cardíaco prolongado, ecocardiograma transesofágico em pacientes selecionados, pesquisa de trombofilia autoimune em jovens, exames direcionados para dissecção, rastreio de câncer oculto e investigação genética em cenários específicos

Depois disso, as causas passam a ser organizadas em quatro grupos principais:

CategoriaExemplos
Cardioembólicatrombo intracardíaco, fibrilação atrial, outras cardiopatias emboligênicas
Aterosclerose de grandes artériasplacas carotídeas ou intracranianas relacionadas topograficamente ao infarto
Doença de pequenos vasosinfarto lacunar com perfil clínico-radiológico compatível
Outras causas definidasdissecção arterial, vasculites, síndromes genéticas, web de carótida, câncer associado a estado pró-trombótico

Se, mesmo após o segundo passe, não houver uma explicação convincente, o paciente permanece em uma categoria de causa indeterminada, descrita pelos autores como uma atualização do conceito de ESUS.

Teste rapido

Pergunta: se um paciente de 45 anos teve AVC isquêmico, fez ecocardiograma transtorácico e Holter de 24 horas normais, a investigação acabou?

Resposta: não necessariamente. Pelo ISPS25, isso pode ser apenas o primeiro passe. Dependendo do contexto, ainda pode haver indicação de monitoramento cardíaco prolongado, ecocardiograma transesofágico com estudo de forame oval patente, investigação de anticorpos antifosfolípides ou exames vasculares adicionais.

O que isso significa na pratica?

Na prática, o ISPS25 tenta reduzir o número de pacientes que recebem alta com a etiqueta genérica de AVC sem causa definida. Isso pode ter impacto direto na prevenção secundária, porque descobrir fibrilação atrial, forame oval patente de alto risco, dissecção arterial ou câncer oculto muda a conversa sobre medicação, procedimentos e seguimento.

Ele também funciona como um roteiro. Em vez de pedir exames de forma dispersa, a equipe passa a ter uma sequência mais clara de investigação.

Perguntas frequentes

Medo

Tive um AVC e disseram que nao acharam a causa. Isso e grave?
Não necessariamente. Isso pode significar apenas que a investigação inicial não encontrou um mecanismo convincente. Em muitos casos, ainda há espaço para exames adicionais guiados pelo perfil clínico.

Se a causa do meu AVC nao for encontrada mesmo com todos os exames, vou ter outro?
O risco de recorrência existe, mas varia conforme idade, fatores de risco, padrão do infarto e tratamento preventivo instituído. Mesmo quando a causa exata não é definida, controlar pressão, diabetes, colesterol e tabagismo continua sendo essencial.

Dia a dia

Preciso fazer todos esses exames novos do ISPS25?
Não obrigatoriamente. O ISPS25 é uma proposta de especialistas, não um protocolo obrigatório para todos. A decisão depende da sua idade, do tipo de infarto, dos achados iniciais e da suspeita clínica.

Depois de um AVC, quando posso voltar as atividades normais?
Isso depende da gravidade do AVC, das sequelas, da profissão, da recuperação funcional e da causa identificada. O ISPS25 ajuda na investigação etiológica, mas não substitui o plano de reabilitação e acompanhamento neurológico.

Tratamento

Se encontrarem fibrilacao atrial no monitoramento prolongado, o tratamento muda?
Frequentemente, sim. Fibrilação atrial sustentada costuma levar à discussão sobre anticoagulação, que é mais eficaz do que antiplaquetários para prevenção de novos AVCs nesse contexto.

E se encontrarem um forame oval patente?
Em pacientes com menos de 60 anos e perfil compatível, o fechamento do forame oval patente pode ser considerado. A decisão depende de critérios anatômicos, exclusão de outras causas e avaliação individual do risco-benefício.

Anticoagulante e melhor que aspirina para quem teve ESUS?
Não de forma generalizada. Ensaios clínicos em pacientes com ESUS não mostraram benefício consistente dos anticoagulantes sobre a aspirina para todos os casos. Isso reforça a importância de subclassificar melhor o mecanismo do AVC.

Futuro

O ISPS25 ja e usado em hospitais?
Ainda não como padrão universal. É uma proposta recente que precisa de validação adicional, embora várias ideias centrais já façam parte da prática em centros especializados.

Existe algum exame de sangue que identifica a causa do AVC?
Não existe um exame único. Alguns marcadores ajudam em situações específicas, como D-dímero elevado em suspeita de câncer associado ao AVC e anticorpos antifosfolípides em pacientes jovens ou com contexto sugestivo.

Doencas geneticas podem causar AVC?
Sim. Elas são raras, mas fazem parte do diagnóstico diferencial em pacientes com fenótipo compatível, história familiar sugestiva ou achados de neuroimagem que apontem para essa possibilidade.

Acao

O que posso fazer se tive um AVC sem causa definida?
Leve a discussão para a consulta neurológica. Pergunte se todos os exames do primeiro passe foram concluídos e se existe indicação de algum exame do segundo passe no seu caso.

O que posso fazer a partir de agora?

Importante

Referencia cientifica

Yaghi S, et al. Proposal for the Ischemic Stroke Phenotyping System 2025: ISPS25. Stroke. 2025. DOI: 10.1161/STROKEAHA.125.051169.

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