Hidrocefalia de pressão normal idiopática: quais sintomas costumam aparecer primeiro e como a doença evolui?
Publicado em 2 de abril de 2026
Uma revisão crítica mostra que, na hidrocefalia de pressão normal idiopática, a dificuldade para andar costuma ser o primeiro sinal. Alterações cognitivas e urinárias podem surgir depois, e exames de imagem podem mostrar mudanças anos antes dos sintomas.

Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.
Hidrocefalia de pressão normal idiopática: o que costuma aparecer primeiro?
Se você ou alguém da família recebeu a suspeita de hidrocefalia de pressão normal idiopática, a pergunta mais importante costuma ser esta: os sintomas aparecem de uma vez ou vão surgindo aos poucos? Esta revisão crítica sugere que, na maioria dos casos, a dificuldade para andar é o primeiro sinal mais marcante, enquanto as alterações cognitivas e os sintomas urinários podem surgir depois. Ela também mostra algo importante: algumas alterações na ressonância podem aparecer anos antes do quadro ficar óbvio.
Isso não significa que toda pessoa com ventrículos aumentados terá a doença, nem que exista uma sequência rígida igual para todos. A própria revisão enfatiza que a evolução é heterogênea, isto é, varia bastante entre os pacientes, e que ainda há lacunas importantes no conhecimento sobre a fase inicial e pré-clínica.
A mensagem prática é simples: andar piorando sem explicação clara em uma pessoa mais velha merece atenção, sobretudo quando isso vem acompanhado de lentidão, instabilidade, urgência urinária ou piora cognitiva. Quanto mais cedo o quadro é reconhecido, maior tende a ser a chance de discutir avaliação adequada no momento certo.
Resumo em 30 segundos
- O sintoma que mais frequentemente aparece primeiro é a alteração da marcha.
- A cognição pode piorar depois, mas o padrão varia bastante e sofre influência de outras doenças e comorbidades.
- Os sintomas urinários parecem evoluir mais de urgência para incontinência, e incontinência tende a ser mais tardia.
- Alguns achados de imagem podem aparecer anos antes dos sintomas, mas ainda não sabemos prever com precisão quem vai evoluir para a doença clínica.
- A revisão sugere que atrasar o tratamento pode piorar desfechos em parte dos pacientes, embora isso não seja uniforme em todos os estudos.
Mensagens principais em 3 níveis
1) A dificuldade para andar costuma vir primeiro
- Nível 1: Marcha e equilíbrio geralmente são os primeiros sinais.
- Nível 2: Em uma coorte de 429 pacientes, a marcha foi o primeiro sintoma em 40%, acima de memória e incontinência.
- Nível 3: Isso não quer dizer que toda dificuldade de andar seja HPN; quer dizer apenas que, quando HPN existe, a marcha costuma liderar o quadro.
2) A parte cognitiva existe, mas não segue um roteiro único
- Nível 1: A cognição pode piorar cedo ou mais tarde.
- Nível 2: Déficits de atenção, lentificação mental e memória são comuns, mas comorbidades mudam muito o fenótipo.
- Nível 3: Isso é um dos motivos pelos quais HPN pode se confundir com Alzheimer, parkinsonismo e outras causas de declínio cognitivo.
3) Urgência urinária pode vir antes da perda urinária
- Nível 1: Sintomas urinários podem começar como urgência.
- Nível 2: A revisão aponta uma progressão mais típica de urgência/frequência para incontinência.
- Nível 3: Como problemas urinários são muito comuns em idosos, esse sinal isolado é pouco específico.
O que é a hidrocefalia de pressão normal idiopática?
É uma condição em que há aumento dos ventrículos cerebrais e alterações do fluxo do líquor, acompanhados por uma combinação variável de sintomas, especialmente:
- dificuldade para andar,
- piora cognitiva,
- sintomas urinários.
“Idiopática” quer dizer que não existe uma causa única claramente definida. E “pressão normal” não quer dizer que não há problema: quer dizer apenas que o quadro não se comporta como uma hidrocefalia aguda clássica com pressão sempre alta.
Como esse estudo foi feito?
Os autores fizeram uma revisão crítica da literatura para entender a história natural da doença antes da derivação liquórica. A busca foi feita no PubMed, com termos relacionados à evolução clínica e radiológica da HPN idiopática, seguindo princípios PRISMA. No total, eles encontraram 313 artigos, reduziram para 255 após exclusões e organizaram os achados em cinco áreas: início clínico, marcha, cognição, sintomas urinários e achados radiológicos.
Isso é importante porque:
- não é um estudo com um único grupo de pacientes,
- não é um ensaio clínico,
- e os resultados dependem da qualidade e da comparabilidade dos estudos incluídos.
O que a revisão encontrou sobre os sintomas iniciais?
A revisão é bastante consistente em um ponto: a marcha costuma ser o primeiro domínio afetado. Em uma série, foi o primeiro sintoma em todos os 10 pacientes observados antes do início clínico. Em outra, com 429 pacientes, a marcha veio primeiro em 40%, equilíbrio em 18%, memória em 12% e incontinência em 7%. Em uma série de 132 pacientes, o tempo médio antes da cirurgia foi de cerca de 36 meses para marcha, versus 30 meses para sintomas urinários e 30 meses para cognição.
Em linguagem simples: a pessoa muitas vezes começa “andando estranho” antes de ficar claramente esquecida ou incontinente.
Como a marcha costuma piorar?
Os termos usados nos estudos variam: marcha de base alargada, marcha magnética, marcha arrastada, ataxia de marcha. O ponto principal é que a marcha vai piorando aos poucos, mas não no mesmo ritmo para todo mundo.
Alguns números úteis:
- em uma coorte pequena, 64 em cada 100 pacientes pioraram da marcha em 3 a 4 meses;
- em outra série, 33 em cada 100 haviam piorado após 12 meses, e 89 em cada 100 após 24 meses;
- em um seguimento mais longo, 63 em cada 100 tinham marcha persistente ou pior em 1 ano, e 65 em cada 100 pioraram em 5 anos.
A revisão também chama atenção para o freezing de marcha — aquele “travamento” ao iniciar ou virar. Ele parece ser mais comum em fases mais tardias.
E a memória, a atenção e o raciocínio?
O padrão cognitivo mais citado é “frontal-subcortical”, o que, na prática, costuma significar:
- lentidão para pensar,
- dificuldade de atenção,
- piora de funções executivas, como planejar e organizar,
- problemas de memória que nem sempre são iguais aos da doença de Alzheimer.
Mas aqui existe uma grande nuance: nem todo paciente segue a mesma ordem, e comorbidades vasculares ou neurodegenerativas podem misturar muito o quadro. A revisão destaca justamente a falta de estudos longitudinais mais robustos para mapear essa evolução com precisão.
Um dado que chama atenção veio de um estudo populacional citado na revisão: entre pessoas com ventriculomegalia e possível HPN, 40 em cada 100 desenvolveram demência, contra 21 em cada 100 entre pessoas sem ventriculomegalia. Isso não prova causalidade, mas mostra que o acompanhamento desses indivíduos merece cuidado.
Como os sintomas urinários costumam evoluir?
Esta foi a área menos estudada. Ainda assim, o padrão que emerge é:
- urgência,
- aumento da frequência,
- depois, perda urinária mais franca.
A revisão cita estudos em que:
- 93 em cada 100 tinham sintomas de armazenamento vesical,
- 64 em cada 100 tinham urgência/frequência,
- 57 em cada 100 tinham incontinência, em um grupo de pacientes não derivados.
Aqui é fundamental não superinterpretar. Sintomas urinários são comuns no envelhecimento e podem ocorrer por várias outras causas. Urgência urinária isolada não fecha diagnóstico de HPN.
O que a imagem pode mostrar antes dos sintomas?
Este é um dos trechos mais interessantes da revisão. Os autores resumem evidências de que algumas alterações de imagem podem aparecer anos antes da fase clínica. Entre elas:
- ventriculomegalia,
- espaços subaracnoides aumentados,
- estreitamento dos sulcos no alto da convexidade,
- ângulo caloso reduzido,
- padrão DESH em alguns casos.
Em uma série, 9 de 10 pacientes já tinham achados típicos mais de 3 anos antes de qualquer sintoma. Em outro seguimento, 5 de 8 indivíduos com achados assintomáticos evoluíram clinicamente ao longo de 16 anos. E um estudo prospectivo citado estimou risco de progressão de cerca de 17% ao ano em pessoas com ventriculomegalia assintomática associada a DESH ou “tight high convexity”.
O lado importante dessa história é: imagem alterada não significa destino inevitável. Ainda não sabemos prever bem quem vai progredir e quem não vai.
Existe uma fase “pré-clínica”?
Provavelmente sim. A revisão propõe um modelo em estágios:
- fase radiológica inicial,
- fase radiológica assintomática,
- fase clínica inicial,
- fase clínica avançada,
- fase muito tardia.
Na prática, isso ajuda a pensar que a doença talvez não “comece” no dia em que a pessoa reclama de andar pior. Ela pode estar em construção havia anos.
O tratamento deve ser discutido cedo?
A revisão sugere que sim, isso provavelmente importa. Em parte dos estudos citados, pacientes que aguardaram mais para cirurgia chegaram piores ao procedimento e tiveram desfechos globais inferiores, ainda que nem todos os estudos mostrem exatamente o mesmo padrão.
O ponto mais honesto é este:
- a revisão sugere uma janela de oportunidade;
- mas a decisão real depende de diagnóstico correto, avaliação clínica, imagem, testes complementares e estado geral.
Teste rápido: quando vale levantar a antena?
Este não é um teste diagnóstico. É apenas uma triagem de atenção.
Pense em investigar mais a fundo se, em uma pessoa mais velha, aparecem juntos ou em sequência:
- andar mais lento, curto, “colado no chão” ou instável;
- piora para virar ou iniciar a marcha;
- urgência urinária nova ou progressiva;
- lentificação mental, apatia ou esquecimento recente;
- ressonância com ventrículos aumentados ou padrão sugestivo de HPN.
Quanto mais desses elementos coexistem, mais razoável é discutir HPN no raciocínio diagnóstico.
O que isso significa na prática para pacientes e famílias?
- Primeiro: nem toda dificuldade para andar em idoso é HPN.
- Segundo: nem todo aumento dos ventrículos na ressonância é HPN.
- Terceiro: quando marcha, cognição e sintomas urinários começam a se combinar, principalmente com imagem sugestiva, vale procurar avaliação especializada.
A maior utilidade desta revisão é mostrar que:
- o quadro costuma ser gradual,
- a marcha é um sinal de alerta importante,
- alterações de imagem podem anteceder sintomas,
- e atrasar o reconhecimento pode custar função em alguns pacientes.
O que perguntar ao médico na consulta?
- A minha dificuldade para andar parece compatível com HPN ou com outra causa?
- A ressonância mostra só ventriculomegalia ou também sinais mais específicos, como DESH ou estreitamento da convexidade?
- Os sintomas urinários parecem fazer parte do mesmo quadro ou podem ter outra origem?
- O padrão cognitivo parece mais compatível com HPN, Alzheimer, doença vascular ou combinação?
- Faz sentido realizar teste de tap test, avaliação funcional da marcha ou outros exames?
- Existe urgência em definir o diagnóstico para não perder uma janela de tratamento?
FAQ
Medo
1) HPN idiopática é o mesmo que Alzheimer? Não. Elas podem se parecer em parte, mas não são a mesma doença. A revisão destaca que o perfil cognitivo da HPN costuma ter mais lentificação, atenção e funções executivas, embora haja sobreposição e comorbidades.
2) Se a pessoa já está esquecendo, isso quer dizer que está tarde demais? Não necessariamente. O texto sugere que a gravidade e a reversibilidade variam conforme o estágio, mas não existe uma linha única que se aplique a todos.
3) Quem tem ventrículos aumentados inevitavelmente vai piorar? Não. A revisão mostra progressão em parte dos indivíduos assintomáticos, não em todos.
Dia a dia
4) Qual mudança no caminhar merece mais atenção? Uma marcha mais lenta, curta, instável, “pesada” ou com dificuldade de iniciar e virar costuma ser mais sugestiva do que apenas “andar menos por cansaço”.
5) Urgência urinária isolada significa HPN? Não. Isoladamente, é pouco específica. O valor aumenta quando aparece junto com marcha alterada e imagem compatível.
6) Quedas entram nesse quadro? Podem entrar. A revisão enfatiza marcha e função postural como aspectos centrais do problema.
Tratamento
7) Medicamento resolve HPN? Ainda não há boa evidência de que tratamento medicamentoso mude a evolução natural da doença. A revisão comenta que há pouca informação sobre isso.
8) Fisioterapia ajuda? Pode ajudar em medidas de marcha e função, mas os efeitos de longo prazo em pacientes não derivados ainda não estão bem esclarecidos.
9) Operar cedo sempre é melhor? A revisão sugere benefício de não atrasar demais em parte dos estudos, mas a decisão depende de acertar o diagnóstico e escolher bem o paciente.
Futuro
10) A doença sempre progride? Na maioria dos casos não tratados, há piora gradual, mas a velocidade é variável. Em poucos casos houve melhora espontânea, algo raro e mal compreendido.
11) Já existe marcador que diga quem vai evoluir? Ainda não com a precisão que gostaríamos. Esse é um dos grandes vazios apontados pelos autores.
Ação
12) Qual é o próximo passo mais útil para a família? Organizar uma linha do tempo dos sintomas, levar vídeos da marcha e revisar cuidadosamente a ressonância com um especialista. Isso costuma acelerar muito a clareza diagnóstica.
✅ Checklist de agência
Sinais de alerta
- piora progressiva da marcha;
- instabilidade ou travamento ao virar;
- urgência urinária nova com piora funcional;
- lentificação mental ou apatia recentes;
- imagem cerebral com ventriculomegalia e sinais compatíveis.
Perguntas para levar à consulta
- Isso parece HPN ou outra doença que imita HPN?
- Há sinais radiológicos específicos além de ventrículos aumentados?
- O quadro está em fase inicial, intermediária ou avançada?
- Faz sentido teste de tap test ou outra avaliação complementar?
Hábitos apoiados pela evidência, se houver
- manter atividade física supervisionada dentro da segurança individual pode ajudar função, embora a revisão ressalte que o impacto de longo prazo ainda não está claro.
O que não fazer sozinho
- não concluir diagnóstico apenas por laudo de ressonância;
- não atribuir todo esquecimento ao envelhecimento normal;
- não adiar avaliação só porque os sintomas “ainda não estão tão fortes”.
Quando buscar ajuda urgente
- quedas repetidas;
- piora funcional acelerada em semanas a poucos meses;
- incapacidade súbita ou importante de andar;
- rebaixamento cognitivo agudo, porque isso pode apontar para outras causas além de HPN.
🚫 O que este estudo/guia NÃO prova
- Não prova que toda ventriculomegalia assintomática vai evoluir para HPN clínica.
- Não prova uma ordem fixa e universal de sintomas em todos os pacientes. A própria revisão enfatiza heterogeneidade.
- Não prova que atraso cirúrgico cause pior desfecho em 100% dos casos, embora sugira esse risco em parte dos estudos.
- Não prova que remédios ou fisioterapia, sozinhos, mudem claramente a história natural da doença.
- Não substitui avaliação individual com exame clínico, imagem e testes funcionais.
⚕️ IMPORTANTE
- Este conteúdo resume um estudo científico e não substitui consulta médica.
- Se você tem sintomas ou dúvidas, converse com um profissional de saúde.
- Não interrompa ou inicie medicamentos por conta própria.
- Cada pessoa é única — o que vale para o grupo do estudo pode não valer para você.
Referência científica: CAMPO-CABALLERO, D. et al. Clinical and radiological evolution of idiopathic normal pressure hydrocephalus: a critical review. Movement Disorders Clinical Practice, v. 13, n. 3, p. 647-656, 2026. DOI: 10.1002/mdc3.70419.
✍️ Dr. Thiago G. Guimarães CRM-SP 178.347 Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética Hospital das Clínicas da FMUSP
📍 Consultório: Rua Cristiano Viana, 328 – Conj. 201 – Pinheiros, São Paulo/SP 🌐 Site: drthiagoguimaraesneuro.com 🎬 YouTube: @DrThiagoGGuimaraes 📸 Instagram: @dr.thiagogguimaraes.neuro
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica.
Artigos Relacionados
Selecionamos outros conteúdos sobre o mesmo tema para aprofundar a leitura de forma prática e organizada.

Ataxia de Friedreich: o que pacientes e famílias precisam saber
A ataxia de Friedreich é a ataxia hereditária mais comum do mundo. Revisão do Lancet Neurology 2025 atualiza tudo o que pacientes e famílias precisam saber: genética, sintomas, tratamentos aprovados e perspectivas de pesquisa.

Ataxia de Friedreich: como a doença costuma evoluir ao longo do tempo?
Um grande estudo internacional ajuda a entender como a ataxia de Friedreich costuma evoluir, quais funções pioram mais cedo e por que idade de início e capacidade de andar importam na progressão.

Ataxias hereditárias: quando a falta de coordenação pode ter origem genética
Uma revisão atualiza como reconhecer, investigar e acompanhar as ataxias hereditárias, incluindo formas tratáveis, exames genéticos e o que realmente importa para pacientes e famílias.

Dor de cabeça de um lado só, com olho vermelho e lacrimejamento: o que a ciência sabe sobre as cefaleias autonômicas do trigêmeo
Uma revisão do JAMA Neurology reuniu o que se sabe sobre tratamento das cefaleias autonômicas do trigêmeo, grupo raro de dores de cabeça muito intensas e geralmente de um lado só, com sintomas como olho vermelho, lacrimejamento e nariz escorrendo.
Agende sua Consulta
Discuta seu caso com o Dr. Thiago G. Guimarães, neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Atendimento presencial em São Paulo ou por telemedicina.
📍 Consultório: R. Cristiano Viana, 328 - Conj. 201, Pinheiros, São Paulo/SP