Dor de cabeça de um lado só, com olho vermelho e lacrimejamento: o que a ciência sabe sobre as cefaleias autonômicas do trigêmeo

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Publicado em 2 de abril de 2026

Uma revisão do JAMA Neurology reuniu o que se sabe sobre tratamento das cefaleias autonômicas do trigêmeo, grupo raro de dores de cabeça muito intensas e geralmente de um lado só, com sintomas como olho vermelho, lacrimejamento e nariz escorrendo.

Dr. Thiago G. Guimarães

Dr. Thiago G. Guimarães

CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.

Dor de cabeça de um lado só, com olho vermelho e lacrimejamento: isso pode ter tratamento?

Se você já teve ou conhece alguém com crises muito intensas de dor de cabeça sempre de um lado só, acompanhadas de olho vermelho, lacrimejamento, nariz escorrendo ou entupido, este texto é importante. A boa notícia é que esse grupo de doenças existe, é conhecido pela neurologia, e há tratamentos que podem ajudar bastante. A má notícia é que algumas dessas condições são raras, dolorosas e ainda pouco estudadas.

Uma revisão publicada no JAMA Neurology reuniu o que sabemos sobre as chamadas cefaleias autonômicas do trigêmeo. Elas incluem a cefaleia em salvas, a hemicrania paroxística, a hemicrania contínua, a SUNCT e a SUNA. Em comum, elas costumam causar dor forte, de um lado só, junto com sinais “automáticos” do rosto, como olho vermelho, lacrimejamento, congestão nasal, queda da pálpebra ou suor facial. O que mais ajuda a separar uma da outra é, muitas vezes, quanto tempo dura cada crise.

Resumo em 30 segundos


2) Mensagens principais em 3 níveis

Mensagem 1

Nem toda dor de cabeça muito forte é “enxaqueca”.

Mensagem 2

Há tratamento, mas a força da evidência varia bastante.

Mensagem 3

Um bom diagnóstico muda tudo.


3) O que são as cefaleias autonômicas do trigêmeo?

As cefaleias autonômicas do trigêmeo, ou TACs, são um grupo de dores de cabeça primárias marcadas por dois elementos centrais:

A figura da revisão mostra bem a diferença prática entre elas:

CondiçãoDuração típica da criseFrequência típica
Cefaleia em salvas15 a 180 minutos0,5 a 8 por dia
Hemicrania paroxística2 a 30 minutos5 a 40 por dia
Hemicrania contínuaDor contínua com piorasvariável
SUNCT/SUNA5 a 600 segundos3 a 200 por dia

Esses números ajudam a entender por que o diagnóstico pode atrasar: algumas parecem enxaqueca, outras se confundem com neuralgia do trigêmeo, sinusite ou até problema ocular.


4) Como esse estudo foi feito?

Os autores fizeram uma busca no PubMed/MEDLINE de 2000 a 2022 sobre cefaleia em salvas, hemicrania paroxística, hemicrania contínua, SUNCT e SUNA, incluindo epidemiologia, fisiopatologia, sintomas e tratamento. Para terapia, eles priorizaram artigos com resultados de pelo menos 10 pacientes. Isso é importante porque mostra duas coisas:


5) O que a revisão encontrou para cada doença?

5.1) Cefaleia em salvas crônica: o que parece funcionar melhor?

Na crise aguda, a revisão destaca principalmente:

Os números ajudam: em uma meta-análise citada, o alívio em 15 minutos com sumatriptana foi de 48 em 100 pessoas, contra 17 em 100 com placebo. Para zolmitriptana nasal 10 mg, houve melhora em 30 minutos em 63 em 100, contra 30 em 100 com placebo.

Na prevenção, os autores colocam como prioridades:

O galcanezumabe não se mostrou superior ao placebo em estudo randomizado de 3 meses para a forma crônica, embora uma série aberta de longo prazo tenha sugerido benefício em parte dos pacientes aos 12 meses. Isso é um bom exemplo de dado que parece promissor, mas ainda não permite falar em eficácia sólida para todos.

5.2) Hemicrania paroxística: por que a indometacina é tão importante?

A hemicrania paroxística costuma causar crises muito intensas, curtas e repetidas muitas vezes ao dia. Na revisão, a mensagem principal é clara: a resposta à indometacina é um marco clínico. Em muitas séries, a resposta foi completa ou quase completa na grande maioria dos pacientes.

Em termos práticos, isso significa que:

Outras opções foram relatadas em casos ou séries pequenas, como topiramato, verapamil, carbamazepina e estimulação vagal, mas com evidência bem menor.

5.3) Hemicrania contínua: por que às vezes demora para melhorar?

A hemicrania contínua é diferente porque não é uma dor em crises separadas. É uma dor contínua, sempre de um lado, com pioras por cima da dor de base. O ponto-chave da revisão é que a resposta à indometacina continua sendo central, mas ela nem sempre acontece imediatamente. Em uma série citada, só 10% responderam em 24 horas; 43% responderam completamente em uma semana, e alguns precisaram de até 4 semanas.

Isso evita um erro comum: abandonar cedo demais a hipótese diagnóstica.

Quando a indometacina não pode ser usada ou não é tolerada, a revisão menciona opções como:

5.4) SUNCT e SUNA: por que são tão difíceis?

A SUNCT e a SUNA são síndromes raras de dor muito breve, geralmente na região ao redor do olho, que podem acontecer dezenas de vezes ao dia. Como as crises duram segundos ou poucos minutos, o tratamento “na hora” costuma ser pouco útil. O foco vira prevenção.

Na revisão, o resumo de prioridades terapêuticas coloca:

Além disso, a revisão menciona:


6) Teste rápido: quando pensar que pode ser uma TAC?

Este teste não fecha diagnóstico, mas pode ajudar você a perceber que vale procurar avaliação neurológica.

Pense em TAC se a dor:

Se você marcou várias dessas características, faz sentido conversar com um neurologista com experiência em cefaleias.


7) O que isso significa na prática?


8) O que perguntar ao médico na consulta?


FAQ

😰 Medo

1) Essa dor pode ser grave? Pode ser muito grave em intensidade, mas isso não quer dizer automaticamente que seja tumor ou AVC. Ainda assim, dor nova, explosiva, diferente do padrão habitual ou com sinais neurológicos exige avaliação médica.

2) Ter olho vermelho e lacrimejamento significa problema no olho? Nem sempre. Nas TACs, esses sinais podem fazer parte da dor de cabeça. Mas causas oftalmológicas precisam ser excluídas quando a história não está clara.

🏠 Dia a dia

3) Essas crises podem atrapalhar muito a vida? Sim. A revisão reforça que são doenças extremamente dolorosas e incapacitantes, especialmente quando frequentes ou crônicas.

4) Dá para confundir com sinusite? Sim. Principalmente quando há nariz entupido ou escorrendo. Isso ajuda a explicar por que alguns pacientes demoram para receber o diagnóstico certo.

💊 Tratamento

5) Oxigênio ajuda mesmo? Na cefaleia em salvas, sim, e com boa base de evidência. A revisão trata o oxigênio como opção forte para a crise aguda.

6) Todo mundo com cefaleia em salvas pode usar sumatriptana? Não. A revisão lembra que ela é contraindicada em pessoas com doença cardiovascular clinicamente relevante.

7) Indometacina é só mais um anti-inflamatório comum? Não exatamente. Em hemicrania paroxística e hemicrania contínua, ela tem um papel especial, inclusive diagnóstico. Mas pode dar efeitos colaterais e exige supervisão médica.

8) Galcanezumabe resolve a cefaleia em salvas crônica? Ainda não dá para dizer isso. O ensaio randomizado de 3 meses não mostrou superioridade clara sobre placebo na forma crônica, apesar de dados abertos mais tardios sugerirem benefício em parte dos pacientes.

🔮 Futuro

9) A ciência já sabe tudo sobre essas dores? Não. A própria revisão destaca que faltam biomarcadores confiáveis e bons ensaios clínicos em várias TACs raras.

10) Existem tratamentos cirúrgicos ou por estimulação? Sim, em casos selecionados e geralmente refratários. Isso inclui algumas formas de neuromodulação e, em SUNCT/SUNA com conflito neurovascular, descompressão microvascular em pacientes muito bem escolhidos.

✋ Ação

11) Quando devo procurar ajuda urgente? Quando houver dor abrupta e muito diferente do padrão habitual, alteração visual importante, febre, rigidez no pescoço, fraqueza, confusão, convulsão ou perda de consciência.

12) Vale a pena procurar um especialista em dor de cabeça? Sim, especialmente quando a dor é unilateral, repetitiva, muito intensa e acompanha sinais autonômicos. Nessas situações, o subtipo de cefaleia muda o tratamento.


✅ Checklist de agência

Sinais de alerta

Perguntas para levar à consulta

Hábitos que podem ajudar

O que não fazer sozinho

Quando buscar ajuda urgente


🚫 O que este estudo NÃO prova


⚕️ IMPORTANTE

Referência científica: DIENER, Hans Christoph; TASSORELLI, Cristina; DODICK, David W. Management of trigeminal autonomic cephalalgias including chronic cluster: a review. JAMA Neurology, v. 80, n. 3, p. 308-319, 2023. DOI: 10.1001/jamaneurol.2022.4804.


✍️ Dr. Thiago G. Guimarães CRM-SP 178.347 Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética Hospital das Clínicas da FMUSP

📍 Consultório em Pinheiros, São Paulo/SP 🌐 Site: drthiagoguimaraesneuro.com 🎬 YouTube: @DrThiagoGGuimaraes 📸 Instagram: @dr.thiagogguimaraes.neuro

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica.

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