Trombose Venosa Cerebral Grave: Cateter, Anticoagulação ou os Dois?
No estudo TO-ACT, acrescentar tratamento endovascular ao tratamento médico padrão não melhorou a recuperação funcional em 12 meses em pacientes com trombose venosa cerebral grave. Isso não significa que o cateter nunca tenha papel, mas reforça que a anticoagulação e o cuidado especializado seguem centrais.
Publicado em 17 de maio de 2026
Entenda o que um estudo randomizado mostrou sobre tratamento endovascular na trombose venosa cerebral grave e por que anticoagulação segue sendo parte central do cuidado.


Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.
Resposta curta
A trombose venosa cerebral é um tipo de AVC em que um coágulo bloqueia as veias que drenam o sangue do cérebro.
Ela pode ser grave, principalmente quando vem com sonolência intensa, confusão, coma, sangramento no cérebro ou trombose das veias profundas.
O estudo TO-ACT comparou duas estratégias em pacientes graves: tratamento médico padrão sozinho versus tratamento médico padrão mais tratamento endovascular, isto é, um procedimento por cateter para tentar retirar ou dissolver o coágulo.
O resultado principal foi direto: neste estudo, acrescentar o tratamento endovascular não melhorou a recuperação funcional em 12 meses.
Isso não significa que o cateter nunca possa ser considerado. Significa que, para o grupo estudado, o benefício geral não ficou demonstrado. Na prática, a anticoagulação, o controle de complicações e a avaliação por equipe experiente continuam sendo pontos centrais do cuidado.

Em 30 segundos
A trombose venosa cerebral acontece quando as “vias de drenagem” do cérebro entopem por um coágulo. Em vez de faltar sangue por uma artéria entupida, como no AVC mais comum, o problema principal é o sangue ter dificuldade para sair do cérebro.
Isso pode aumentar a pressão dentro da cabeça, causar dor de cabeça, convulsões, alteração de consciência e até sangramento.
O tratamento mais importante costuma ser anticoagulação, geralmente com heparina na fase aguda, mesmo quando existe sangramento em alguns casos. Isso parece estranho à primeira vista, mas faz sentido porque o problema inicial é um coágulo venoso.
O TO-ACT testou se adicionar um procedimento por cateter, com trombectomia mecânica ou remédio local para dissolver o coágulo, melhoraria os resultados.
Em 12 meses, 67% dos pacientes no grupo endovascular e 68% no grupo de tratamento padrão estavam sem incapacidade relevante pela escala usada no estudo. Ou seja: o estudo não mostrou vantagem funcional do procedimento endovascular.
O que importa de verdade
Mensagem 1
- Em 1 frase: O tratamento endovascular não melhorou a recuperação funcional no TO-ACT.
- Por que isso importa: Procedimentos invasivos devem demonstrar benefício claro, especialmente em doenças graves.
- A nuance: O estudo foi pequeno e não prova que o cateter nunca tenha papel em pacientes muito selecionados.
Mensagem 2
- Em 1 frase: A anticoagulação segue como pilar do tratamento da trombose venosa cerebral.
- Por que isso importa: Muitas famílias estranham usar anticoagulante quando há sangramento, mas na trombose venosa cerebral a lógica é tratar o coágulo que bloqueia a drenagem.
- A nuance: A decisão precisa considerar imagem, gravidade, risco de sangramento, causa da trombose e evolução clínica.
Mensagem 3
- Em 1 frase: Um resultado “negativo” também ajuda a medicina.
- Por que isso importa: Ele evita que um procedimento seja usado como solução automática sem prova de melhora real.
- A nuance: Estudos futuros podem avaliar técnicas, dispositivos e subgrupos diferentes.
Para quem este texto é útil?
Este texto é útil para:
- pacientes que receberam diagnóstico de trombose venosa cerebral;
- familiares de alguém internado com trombose venosa cerebral grave;
- pessoas que ouviram falar em cateter, trombectomia ou trombólise para esse problema;
- cuidadores tentando entender por que anticoagulação pode ser usada mesmo quando existe sangramento;
- pacientes em seguimento após alta hospitalar.
Este texto não substitui a avaliação da equipe que acompanha o caso. A trombose venosa cerebral é uma condição que pode mudar rápido, especialmente na fase aguda.
O que é isso, em linguagem simples?
O cérebro tem artérias e veias.
As artérias levam sangue para o cérebro. As veias drenam o sangue de volta, como se fossem “estradas de saída”.
Na trombose venosa cerebral, um coágulo bloqueia parte dessas estradas de saída. O sangue tem dificuldade para escoar. Isso pode aumentar a pressão dentro das veias e causar inchaço, dor de cabeça, convulsões e sangramento.
É diferente do AVC arterial mais conhecido. No AVC arterial, o problema costuma ser a falta de chegada de sangue em uma região. Na trombose venosa, o problema é a dificuldade de drenagem.

Como isso aparece no dia a dia?
A trombose venosa cerebral pode aparecer de formas diferentes.
Algumas pessoas têm dor de cabeça forte e progressiva. Outras podem ter crise convulsiva, confusão, sonolência, alteração visual, fraqueza em um lado do corpo ou piora rápida do nível de consciência.
Sinais que costumam preocupar mais incluem:
- confusão mental;
- sonolência importante;
- coma;
- convulsões;
- sangramento no cérebro;
- trombose das veias profundas do cérebro;
- sinais de aumento de pressão dentro da cabeça.
No estudo TO-ACT, os pesquisadores escolheram justamente pacientes com maior risco de evolução ruim.
Como o estudo foi feito?
O TO-ACT foi um ensaio clínico randomizado. Isso significa que os pacientes foram colocados em grupos por sorteio para comparar tratamentos de forma mais rigorosa.
O estudo incluiu 67 adultos com trombose venosa cerebral grave confirmada por imagem.
Os pacientes foram divididos em dois grupos:
| Grupo | Tratamento recebido |
|---|---|
| Tratamento médico padrão | Anticoagulação e cuidados conforme diretrizes |
| Tratamento endovascular + padrão | Cateter para tentar retirar ou dissolver o coágulo, além do tratamento médico padrão |
O tratamento endovascular podia incluir:
- trombectomia mecânica, que é tentativa de remover o coágulo com dispositivos;
- trombólise local, que é aplicação de remédio para dissolver o coágulo dentro do seio venoso;
- combinação das duas estratégias.
O principal desfecho foi estar sem incapacidade em 12 meses, medido pela escala modificada de Rankin, também chamada mRS.
O que o estudo encontrou?
O achado principal foi que o tratamento endovascular não melhorou a recuperação funcional em 12 meses.
| Resultado em 12 meses | Endovascular + tratamento padrão | Tratamento padrão isolado |
|---|---|---|
| mRS 0–1, sem incapacidade relevante | 22 de 33 pacientes, 67% | 23 de 34 pacientes, 68% |
| Mortalidade | 4 de 33 pacientes, 12% | 1 de 34 pacientes, 3% |
| Nova hemorragia intracerebral sintomática | 1 de 33 pacientes, 3% | 3 de 34 pacientes, 9% |
A mortalidade foi numericamente maior no grupo endovascular, mas essa diferença não foi estatisticamente conclusiva.
A hemorragia sintomática foi numericamente menor no grupo endovascular, mas também sem diferença conclusiva.
Houve perfuração de seio ou veia durante o procedimento em 3 pacientes do grupo endovascular. Nenhum desses casos gerou hemorragia sintomática atribuída à perfuração, segundo o estudo.
O estudo foi interrompido antes do número planejado de participantes porque uma análise intermediária indicou baixa chance de demonstrar benefício se continuasse.

O que isso muda na prática?
O principal recado é que o tratamento endovascular não deve ser visto como solução automática para toda trombose venosa cerebral grave.
Na prática, a equipe costuma se concentrar em alguns pontos:
- confirmar a extensão da trombose por imagem;
- iniciar e monitorar anticoagulação quando indicada;
- tratar convulsões, se ocorrerem;
- controlar pressão intracraniana, se estiver elevada;
- investigar causas da trombose;
- avaliar risco de piora neurológica;
- discutir tratamento endovascular apenas em situações selecionadas.
O estudo ajuda a reduzir uma ideia perigosa: “se é grave, o cateter sempre é melhor”. A medicina não funciona assim. Em doenças complexas, mais intervenção nem sempre significa melhor resultado.
Um exemplo do dia a dia
Imagine que uma cidade tem várias ruas de saída bloqueadas depois de uma tempestade. O trânsito começa a acumular, a pressão aumenta e alguns bairros ficam alagados.
A anticoagulação funciona como uma estratégia para impedir que os bloqueios aumentem e permitir que o próprio sistema de circulação volte a se organizar.
O cateter seria como enviar uma equipe para tentar desobstruir uma via específica. Em teoria, parece uma boa ideia. Mas o estudo perguntou: fazer isso melhora a vida das pessoas depois?
Neste estudo, a resposta foi: não ficou demonstrado benefício funcional geral.
Teste rápido de compreensão
Se você entendeu o texto, deve conseguir responder:
- A trombose venosa cerebral é um problema nas veias ou nas artérias?
- O tratamento padrão envolve anticoagulação?
- O estudo mostrou benefício funcional claro do tratamento endovascular?
- Um estudo negativo significa que o procedimento nunca será usado?
- A decisão deve ser individualizada por uma equipe experiente?
Respostas esperadas: veias; sim; não; não; sim.
O que vale perguntar ao médico?
Perguntas úteis para a equipe:
- Qual veia ou seio venoso está trombosado?
- Há sangramento no cérebro?
- Existe inchaço cerebral ou aumento da pressão intracraniana?
- Houve convulsão ou risco de novas crises?
- A anticoagulação já foi iniciada?
- Qual é a provável causa da trombose?
- Será necessário investigar trombofilias, doenças inflamatórias, câncer, infecção ou fatores hormonais?
- O caso tem indicação de discussão com neurorradiologia intervencionista?
- Quais sinais indicam melhora?
- Quais sinais indicam risco de piora?
FAQ
Medo
Trombose venosa cerebral é um AVC?
Sim. É um tipo de AVC, mas diferente do AVC arterial mais conhecido. O problema está nas veias que drenam o sangue do cérebro.
Isso pode matar?
Pode, especialmente nos casos graves. Mas muitas pessoas se recuperam bem quando recebem diagnóstico e tratamento adequados.
Sangramento no cérebro significa que anticoagulante é proibido?
Não necessariamente. Na trombose venosa cerebral, o sangramento pode ocorrer por bloqueio da drenagem venosa. Por isso, a anticoagulação pode continuar sendo indicada em muitos casos, sempre com supervisão médica.
Dia a dia
Dor de cabeça pode ser o único sintoma?
Pode ser, mas não é possível diagnosticar trombose venosa cerebral apenas pela dor. Dor de cabeça nova, intensa, progressiva ou associada a sintomas neurológicos precisa de avaliação médica.
Convulsão pode acontecer?
Sim. Convulsões podem acontecer na trombose venosa cerebral, especialmente quando há lesão ou sangramento no cérebro.
Tratamento
Qual é o tratamento principal?
O tratamento principal costuma incluir anticoagulação e controle de complicações. A heparina é frequentemente usada na fase aguda, conforme avaliação médica.
O cateter é melhor que anticoagulação?
O estudo TO-ACT não mostrou que acrescentar cateter ao tratamento médico melhorou a recuperação funcional em 12 meses.
Então o tratamento endovascular não serve para nada?
Não é essa a conclusão. O estudo não mostrou benefício geral, mas foi pequeno. O procedimento ainda pode ser discutido em situações selecionadas.
Futuro
A pessoa pode se recuperar completamente?
Pode. Muitos pacientes com trombose venosa cerebral evoluem bem, mas o prognóstico depende da gravidade inicial, extensão da trombose, presença de sangramento, convulsões, coma e resposta ao tratamento.
O coágulo pode voltar?
Pode haver recorrência em alguns casos. Por isso, investigar a causa e definir duração da anticoagulação são etapas importantes do seguimento.
Ação
O que familiares devem observar no hospital?
Mudança no nível de consciência, novas convulsões, piora da dor de cabeça, vômitos, piora visual, fraqueza ou fala alterada devem ser comunicados imediatamente à equipe.
O que não devo fazer sozinho?
Não suspenda anticoagulante, não ajuste dose e não inicie remédios por conta própria. A fase aguda e o seguimento exigem decisões individualizadas.
Checklist de agência
Sinais de alerta
Procure atendimento urgente se houver:
- dor de cabeça súbita ou progressiva muito intensa;
- convulsão;
- confusão mental;
- sonolência fora do habitual;
- desmaio ou coma;
- perda visual;
- fraqueza em um lado do corpo;
- dificuldade para falar;
- piora neurológica após diagnóstico de trombose venosa cerebral.
Perguntas para consulta
Leve estas perguntas:
- Qual foi a causa mais provável da trombose?
- Por quanto tempo devo usar anticoagulante?
- Preciso investigar trombofilia?
- Preciso evitar anticoncepcionais hormonais?
- Quais exames de controle serão necessários?
- Posso praticar atividade física?
- Quando posso voltar ao trabalho?
- Quais sinais exigem pronto-socorro?
O que não fazer sozinho
- Não interromper anticoagulante sem orientação.
- Não usar anti-inflamatórios ou outros remédios sem avisar a equipe.
- Não ignorar piora de dor de cabeça.
- Não dirigir se houve convulsão sem liberação médica.
- Não assumir que todo caso precisa de cateter.
Hábitos e cuidados gerais
- Manter seguimento neurológico.
- Investigar fatores de risco conforme orientação.
- Informar todos os médicos sobre o uso de anticoagulante.
- Levar exames de imagem anteriores nas consultas.
- Anotar sintomas novos e datas.

O que este estudo/guia NÃO prova
Este estudo não prova que o tratamento endovascular nunca tenha utilidade na trombose venosa cerebral.
Ele não prova qual é a melhor conduta para todos os subgrupos, como pacientes em coma, pacientes que pioram apesar da anticoagulação ou pacientes tratados com dispositivos mais modernos.
Ele não substitui a avaliação individual por neurologia, neurorradiologia, neurointensivismo e equipe hospitalar.
Ele não demonstra que anticoagulação seja simples ou sem risco. Ela precisa de indicação, monitoramento e acompanhamento.
Ele não encerra a pesquisa sobre trombose venosa cerebral grave. O próprio estudo reconhece que o tamanho da amostra foi pequeno.
Bloco de segurança
⚕️ IMPORTANTE
• Este conteúdo resume um estudo científico e não substitui consulta médica.
• Se você tem sintomas ou dúvidas, converse com um profissional de saúde.
• Não interrompa ou inicie medicamentos por conta própria.
• Cada pessoa é única — o que vale para o grupo do estudo pode não valer para você.
Referência ABNT
COUTINHO, Jonathan M. et al. Effect of Endovascular Treatment With Medical Management vs Standard Care on Severe Cerebral Venous Thrombosis: The TO-ACT Randomized Clinical Trial. JAMA Neurology, v. 77, n. 8, p. 966-973, 2020. DOI: 10.1001/jamaneurol.2020.1022.
Assinatura
✍️ Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347
Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética
Hospital das Clínicas da FMUSP
📍 Consultório em Pinheiros, São Paulo/SP
🌐 Site: drthiagoguimaraesneuro.com
🎬 YouTube: @DrThiagoGGuimaraes
📸 Instagram: @dr.thiagogguimaraes.neuro
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica.
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