Ataxias hereditárias não afetam apenas o equilíbrio: sono, memória, humor, dor e fadiga também importam
Sim. As ataxias hereditárias podem causar muito mais do que desequilíbrio e falta de coordenação. Alterações de sono, cognição, humor, dor, fadiga e funções autonômicas são frequentes, embora variem bastante entre os diferentes tipos de ataxia.
Publicado em 13 de agosto de 2026
Ataxias hereditárias podem afetar sono, memória, humor, dor, fadiga e funções autonômicas. Entenda o que uma revisão sistemática encontrou.


Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.
Resposta curta
Quando se fala em ataxia hereditária, é comum pensar imediatamente em desequilíbrio, quedas, fala enrolada e dificuldade para coordenar as mãos. Mas essa é apenas uma parte da doença.
Uma revisão sistemática que reuniu 35 estudos mostrou que pessoas com diferentes tipos de ataxia hereditária também podem apresentar alterações de memória e atenção, depressão, ansiedade, problemas de sono, fadiga, dor e alterações urinárias, intestinais ou da pressão arterial.
Isso não significa que todas essas manifestações acontecerão com todas as pessoas. As ataxias hereditárias são um grupo muito diverso de doenças.
A mensagem mais útil é outra: uma consulta sobre ataxia não deveria avaliar apenas como a pessoa anda.
Perguntar sobre sono, energia, humor, memória, dor, bexiga e intestino pode revelar problemas importantes que não foram espontaneamente mencionados e que, em muitos casos, podem receber tratamento sintomático.
Em 30 segundos
A revisão avaliou estudos envolvendo 2.257 pessoas com ataxias hereditárias.
Nas ataxias espinocerebelares autossômicas dominantes, chamadas frequentemente de SCAs, os estudos encontraram aproximadamente:
- alterações cognitivas: 23% a 75%
- depressão: 13% a 69%
- problemas relacionados ao sono: 7% a 80%
- dor: 18% a 60%
- fadiga: 53% a 70%
Essas faixas são muito amplas porque diferentes tipos de ataxia foram estudados com métodos e populações diferentes.
Portanto, 60% em um determinado estudo não significa que uma pessoa com ataxia tenha 60% de chance de desenvolver aquele sintoma.

O que importa de verdade
Mensagem 1
- Em 1 frase: ataxia hereditária pode afetar muito mais do que movimento.
- Por que isso importa: problemas de sono, humor ou fadiga podem interferir fortemente na qualidade de vida.
- A nuance: o padrão varia muito de uma doença genética para outra.
Mensagem 2
- Em 1 frase: alterações cognitivas não significam automaticamente demência.
- Por que isso importa: algumas pessoas apresentam principalmente dificuldade de atenção, organização, velocidade de pensamento ou recuperação de informações.
- A nuance: alguns subtipos parecem afetar a cognição mais do que outros.
Mensagem 3
- Em 1 frase: perguntar ativamente sobre sintomas não motores pode melhorar o cuidado.
- Por que isso importa: muitos desses problemas podem passar despercebidos se a consulta se concentrar apenas em marcha, equilíbrio e coordenação.
- A nuance: esta revisão não testou se uma estratégia específica de tratamento melhora esses sintomas.
Para quem este texto é útil?
Este conteúdo é particularmente útil para:
- pessoas com diagnóstico de uma ataxia genética;
- familiares que perceberam mudanças que parecem não ter relação com equilíbrio;
- pessoas com SCA1, SCA2, SCA3, SCA6, SCA7 ou SCA10;
- pessoas com ataxias recessivas, incluindo ataxia de Friedreich;
- pessoas com FXTAS;
- cuidadores que acompanham mudanças de sono, humor ou comportamento.
Também ajuda a entender por que o neurologista pode fazer perguntas aparentemente distantes da coordenação, como:
“Como você está dormindo?”
“Tem ficado mais cansado?”
“Percebeu mudança de memória?”
“Como está o intestino?”
Essas perguntas fazem parte da avaliação neurológica.
O que é isso, em linguagem simples?
Ataxia significa dificuldade para coordenar adequadamente os movimentos.
O cerebelo é particularmente importante para equilíbrio, precisão e sincronização dos movimentos. Mas suas conexões não terminam no sistema motor.
Ele participa de redes relacionadas a pensamento, emoções e comportamento.
Além disso, muitas ataxias genéticas não afetam exclusivamente o cerebelo. Dependendo da doença, outras estruturas e circuitos do sistema nervoso também podem estar envolvidos.
Por isso, uma doença que inicialmente parece ser “do equilíbrio” pode ter manifestações em várias outras áreas.
Existe inclusive o conceito de síndrome cognitivo-afetiva cerebelar, em que alterações do cerebelo e de suas conexões podem acompanhar dificuldades de funções executivas, organização visuoespacial, linguagem e regulação emocional.
Como isso aparece no dia a dia?
Nem sempre como um sintoma dramático.
Uma pessoa pode continuar reconhecendo familiares, conversando normalmente e cuidando da própria vida, mas perceber que:
- demora mais para organizar uma tarefa;
- perde o fio da conversa com facilidade;
- precisa anotar mais compromissos;
- sente fadiga desproporcional ao esforço realizado;
- dorme durante o dia apesar de passar muitas horas na cama;
- movimenta-se ou fala durante os sonhos;
- começa a sentir dores frequentes;
- fica mais deprimida ou ansiosa;
- levanta para urinar repetidas vezes;
- sente tontura quando fica em pé.
Por isso, “não tenho nenhum sintoma além da ataxia” às vezes muda quando cada área é perguntada separadamente.
Como o estudo foi feito?
Os pesquisadores realizaram uma revisão sistemática, ou seja, procuraram de maneira estruturada estudos já publicados sobre o assunto.
Eles pesquisaram PubMed e EMBASE, considerando trabalhos publicados entre 1947 e fevereiro de 2021.
Para entrar na análise principal, os estudos precisavam incluir mais de cinco pessoas com ataxia cerebelar hereditária geneticamente confirmada e informar detalhadamente sintomas não motores.
Foram selecionados:
- 24 estudos sobre ataxias espinocerebelares autossômicas dominantes;
- 10 sobre ataxias recessivas;
- 1 sobre ataxias ligadas ao X.
No total, havia:
- 1.311 pessoas com SCA;
- 893 com ataxias recessivas;
- 53 com ataxia ligada ao X;
- 450 controles.
Um ponto importante: os pesquisadores não combinaram tudo em uma única porcentagem universal. Os estudos eram diferentes demais entre si.
O que o estudo encontrou?
Cognição: a dificuldade pode ser mais sutil do que “perda de memória”
Nas SCAs, alterações cognitivas apareceram em proporções que variaram aproximadamente de 23% a 75%.
Foram descritas dificuldades em:
- atenção;
- velocidade de processamento;
- planejamento e organização;
- fluência verbal;
- memória.
Mas os subtipos não se comportaram da mesma forma.
Em alguns estudos, a SCA6 apresentou menor frequência de queixas de memória. Já um acompanhamento longitudinal sugeriu declínio cognitivo mais evidente na SCA1.
Isso é importante porque “alteração cognitiva” não é sinônimo de demência.
Em muitas pessoas, as dificuldades foram leves.
Depressão e ansiedade merecem perguntas diretas
A depressão apareceu em aproximadamente 13% a 69% dos participantes com SCAs, dependendo do estudo e do subtipo.
A SCA3, também chamada de doença de Machado-Joseph, recebeu atenção especial.
Em algumas populações, sintomas depressivos foram bastante frequentes. Um dos estudos incluídos encontrou também frequência elevada de ideação suicida em pessoas com SCA3.
Esse achado é clinicamente importante, mas não deve ser transformado em uma estimativa geral para todas as pessoas com SCA3: trata-se de um resultado de uma população específica.
A principal lição é simples: saúde mental precisa fazer parte da consulta sobre ataxia.

Sono: não existe apenas insônia
Os estudos encontraram vários tipos diferentes de problemas:
- insônia;
- sono fragmentado;
- sonolência excessiva durante o dia;
- apneia do sono;
- síndrome das pernas inquietas;
- pesadelos e parassonias;
- transtorno comportamental do sono REM.
Neste último, chamado frequentemente de TCSR, a pessoa pode falar, gritar ou movimentar-se durante sonhos.
Em uma pequena série de SCA2, sintomas sugestivos de TCSR apareceram em 48,5% dos participantes, e sonolência diurna em 42,4%.
Na SCA3, estudos com polissonografia também encontraram alterações importantes, incluindo apneia do sono em parte dos pacientes.
Na SCA10, um pequeno estudo encontrou maior frequência de distúrbios respiratórios durante o sono do que nos controles.
Esses números não são intercambiáveis entre as diferentes SCAs.

Fadiga não é simplesmente “fraqueza”
Na SCA3, fadiga foi relatada por aproximadamente 53% dos participantes em um dos estudos e apareceu com frequência elevada em outras populações.
É possível que existam várias causas ao mesmo tempo:
sono ruim, alterações emocionais, esforço maior para realizar movimentos, comprometimento de redes cerebrais relacionadas a atenção e alerta e, em alguns subtipos, alterações neuromusculares.
Portanto, dizer apenas “é normal ficar cansado porque você tem ataxia” pode ser uma simplificação excessiva.
Dor pode ser parte importante do quadro
Em um estudo com SCA3, aproximadamente metade dos pacientes relatou dor.
Entre os que tinham dor, ela era frequentemente musculoesquelética, principalmente lombar e nos membros inferiores.
Mas existe uma cautela importante.
Uma pessoa com ataxia também pode ter artrose, hérnia de disco, lesões musculares ou outros problemas comuns à população geral.
Ou seja, ter ataxia não torna automaticamente toda dor um sintoma da doença genética.
Bexiga, intestino e pressão também entram na avaliação
O chamado sistema nervoso autônomo controla funções que realizamos sem pensar conscientemente, como pressão arterial, funcionamento intestinal, bexiga, suor e parte da função sexual.
Sintomas autonômicos apareceram em diferentes ataxias.
Foram descritos, dependendo do subtipo:
- urgência urinária;
- perda de urina;
- dificuldade para esvaziar a bexiga;
- noctúria;
- constipação;
- tontura ao ficar em pé;
- alterações de transpiração;
- problemas sexuais.
Isso tem uma consequência diagnóstica importante: a presença de sintomas autonômicos não é exclusiva de outras doenças neurodegenerativas, como a atrofia de múltiplos sistemas.
O contexto completo continua sendo essencial.
E olfato?
Os resultados foram bastante diferentes conforme a doença.
Em uma pequena série de SCA38, 76% apresentaram redução do olfato.
Por outro lado, estudos de SCA3 e SCA10 não encontraram diferença significativa na identificação de odores em relação aos controles.
Esse contraste ilustra bem por que não existe um único “perfil não motor da ataxia”.
Um teste rápido para preparar a próxima consulta
Isto não é um teste diagnóstico.
Pense nas últimas semanas e pergunte a si mesmo:
- Minha atenção ou memória mudou?
- Estou demorando mais para organizar tarefas?
- Tenho me sentido persistentemente triste, ansioso ou sem interesse?
- Meu sono piorou ou estou com muito sono durante o dia?
- Tenho sentido fadiga que limita minhas atividades?
- Surgiu dor persistente?
- Minha bexiga ou meu intestino mudaram?
- Tenho tontura quando fico em pé?
- Minha função sexual mudou?
- Percebi alteração de olfato ou paladar?
Um “sim” não significa necessariamente que a ataxia seja a causa.
Significa apenas que vale levar essa informação para a consulta.
O que isso muda na prática?
A principal consequência desta revisão não é encontrar mais um exame.
É ampliar a conversa.
Em uma pessoa com ataxia hereditária, avaliar apenas o grau de desequilíbrio pode deixar de fora uma parte importante do impacto da doença.
Sono, dor, depressão, ansiedade e sintomas urinários podem, em determinadas situações, ter tratamento específico mesmo quando ainda não existe uma terapia capaz de interromper a doença genética de base.
A revisão também chama atenção para um problema: não existe ainda uma escala única, validada e específica para registrar todo o conjunto de sintomas não motores das ataxias hereditárias.
Isso provavelmente contribui para que alguns sintomas sejam subestimados.

O que vale perguntar ao médico?
Algumas perguntas úteis são:
- Minha forma de ataxia costuma ter alterações cognitivas?
- Vale realizar uma avaliação neuropsicológica?
- Meu cansaço pode estar relacionado ao sono?
- Há indicação de investigação para apneia do sono?
- Minha dor parece musculoesquelética, neuropática ou de outro tipo?
- Os sintomas urinários precisam de investigação específica?
- Algum dos meus medicamentos pode piorar fadiga, sono ou cognição?
- Como podemos acompanhar esses sintomas ao longo do tempo?
O objetivo não é pedir todos os exames possíveis.
É identificar qual problema realmente está presente e investigá-lo de maneira direcionada.
FAQ
Medo
Ataxia hereditária pode causar demência?
Pode acontecer em determinados subtipos, mas não é inevitável. Muitos estudos encontraram apenas alterações cognitivas leves ou específicas. O risco varia conforme a causa genética.
Ter esquecimento significa que a doença está piorando?
Não necessariamente. Sono ruim, depressão, ansiedade, medicamentos e várias outras condições podem afetar a memória. É preciso avaliar o contexto.
Dia a dia
Por que sinto tanta fadiga mesmo sem fazer muito esforço?
A fadiga pode ser multifatorial. A revisão sugere participação possível do sono, humor, gravidade da doença e de mecanismos relacionados ao próprio sistema nervoso.
Dor nas costas pode ser causada pela ataxia?
Pode estar associada indiretamente, por alterações de postura e movimento, mas também pode ser um problema musculoesquelético independente. A causa precisa ser avaliada.
Tratamento
Tratar o sono ou a depressão melhora a ataxia?
A revisão não estudou essa pergunta. Tratar esses problemas pode ser importante por si só para saúde e qualidade de vida, mas não é possível concluir a partir desse trabalho que isso modifica a progressão da ataxia.
Existem medicamentos específicos para todos os sintomas não motores?
Não. O tratamento depende do sintoma, de sua causa e do tipo de ataxia. A revisão avaliou frequência de sintomas, e não eficácia dos tratamentos.
Futuro
Sintomas não motores podem surgir antes da dificuldade de equilíbrio?
Em algumas ataxias, sim. Os autores destacam particularmente pesquisas sobre uma fase prodrômica da SCA2. Isso não significa que insônia, depressão ou outro sintoma isolado prediga o desenvolvimento de ataxia.
Esses sintomas permitem descobrir qual SCA a pessoa tem?
Em geral, não. Há muita sobreposição entre os diferentes subtipos, e o próprio artigo conclui que o padrão de sintomas não motores provavelmente não é suficientemente específico para determinar o diagnóstico genético.
Ação
Alterações urinárias significam que meu diagnóstico está errado?
Não necessariamente. Disfunção autonômica também ocorre em algumas ataxias hereditárias. O significado depende de todo o quadro clínico.
O que é mais importante contar ao neurologista?
Tudo aquilo que esteja interferindo em sua vida, mesmo que não pareça relacionado à coordenação: memória, humor, sono, fadiga, dor, tontura, intestino, bexiga, função sexual e alterações sensoriais.
Checklist de agência
Antes da próxima consulta:
- anote mudanças de memória ou atenção;
- registre como está o sono e se existe sonolência durante o dia;
- mencione tristeza persistente, ansiedade ou perda de interesse;
- relate fadiga, mesmo que pareça “difícil de explicar”;
- descreva localização, frequência e intensidade de dores;
- informe mudanças urinárias e intestinais;
- conte se existe tontura ao levantar;
- leve a lista completa de medicamentos;
- pergunte quais sintomas podem ser tratados separadamente;
- não atribua automaticamente todo novo sintoma à ataxia.
Procure avaliação médica mais rápida quando houver piora neurológica abrupta, desmaios recorrentes, problemas importantes de deglutição ou outras mudanças intensas. Pensamentos de autoagressão ou suicídio exigem avaliação imediata; esse é um princípio geral de segurança, especialmente relevante porque sintomas depressivos e ideação suicida apareceram em parte da literatura analisada.
O que este estudo/guia NÃO prova
-
Não prova que todos os sintomas encontrados sejam causados diretamente pela ataxia. Dor, depressão, insônia ou fadiga podem ter outras causas.
-
Não fornece uma porcentagem única aplicável a qualquer pessoa com ataxia hereditária. Os estudos analisaram doenças, populações e métodos muito diferentes.
-
Não permite diagnosticar o subtipo genético pelos sintomas não motores. Existe grande sobreposição entre as ataxias.
-
Não demonstra que tratar esses sintomas modifique a progressão da doença genética. A revisão avaliou principalmente presença e frequência, e não eficácia terapêutica.
-
Não permite extrapolar resultados de pequenas séries para todas as pessoas com o mesmo diagnóstico. Algumas estimativas vieram de grupos muito pequenos, e os próprios autores destacam heterogeneidade, possível viés e limitações de generalização.
Bloco de segurança
⚕️ IMPORTANTE • Este conteúdo resume um estudo científico e não substitui consulta médica. • Se você tem sintomas ou dúvidas, converse com um profissional de saúde. • Não interrompa ou inicie medicamentos por conta própria. • Cada pessoa é única — o que vale para o grupo do estudo pode não valer para você.
Referência ABNT
MALEK, Naveed et al. A Systematic Review of the Spectrum and Prevalence of Non-Motor Symptoms in Adults with Hereditary Cerebellar Ataxias. Movement Disorders Clinical Practice, v. 9, n. 8, p. 1027-1039, 2022. DOI: 10.1002/mdc3.13532.
Assinatura
✍️ Dr. Thiago G. Guimarães CRM-SP 178.347 Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética Hospital das Clínicas da FMUSP
📍 Consultório em Pinheiros, São Paulo/SP 🌐 Site: drthiagoguimaraesneuro.com 🎬 YouTube: @DrThiagoGGuimaraes 📸 Instagram: @dr.thiagogguimaraes.neuro
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