Encefalite autoimune: como reconhecer, evitar erros no diagnóstico e entender os casos sem anticorpos detectáveis
Publicado em 14 de abril de 2026
Entenda o que é encefalite autoimune, quando suspeitar, por que muitos casos são diagnosticados de forma errada e o que significa ter um quadro sugestivo mesmo sem anticorpos detectáveis.

Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.
Encefalite autoimune: como reconhecer, evitar erros no diagnóstico e entender os casos sem anticorpos detectáveis
Resposta curta
Encefalite autoimune é uma inflamação do cérebro causada por uma resposta imunológica inadequada. Ela pode ser grave, mas é potencialmente tratável, principalmente quando reconhecida cedo. Os dois textos analisados passam uma mensagem central: não basta um exame de anticorpos negativo para descartar o problema, mas também não basta suspeitar para fechar o diagnóstico. Na prática, o diagnóstico precisa juntar história clínica compatível, evolução subaguda, sinais objetivos de inflamação em exames como líquor e ressonância, exclusão de outras causas e, sempre que possível, pesquisa adequada de anticorpos no sangue e no líquor. Isso importa porque hoje existe tanto atraso diagnóstico quanto excesso de diagnóstico, e os dois erros podem prejudicar o paciente.
Em 30 segundos
A encefalite autoimune costuma aparecer em dias ou semanas, com combinação de alterações de memória, confusão, comportamento estranho, sintomas psiquiátricos, crises epilépticas ou outros déficits neurológicos. Os autores alertam que muitos pacientes recebem esse rótulo sem preencher critérios mínimos. Também lembram que alguns casos chamados de “soronegativos” na verdade foram mal investigados, com testes incompletos. Já a diretriz canadense reforça uma abordagem prática: pedir líquor, ressonância, eletroencefalograma e painel amplo de anticorpos; excluir infecção e outras doenças que imitam o quadro; iniciar tratamento cedo quando a suspeita for forte; e escalar a imunoterapia nos casos graves sem resposta.
O que importa de verdade
Mensagem principal 1
- Em 1 frase: encefalite autoimune não é um diagnóstico feito por impressão clínica isolada.
- Por que isso importa: isso reduz o risco de tratar como autoimune um problema que, na verdade, pode ser infecção, tumor, doença psiquiátrica, distúrbio metabólico ou doença priônica.
- A nuance: ao mesmo tempo, esperar demais pode atrasar um tratamento que funciona melhor quando começa cedo.
Mensagem principal 2
- Em 1 frase: um teste de anticorpos negativo não encerra a investigação.
- Por que isso importa: alguns anticorpos aparecem só no líquor, alguns não estão no painel pedido e alguns podem escapar quando a técnica é limitada.
- A nuance: negativo não significa automaticamente encefalite autoimune “sem anticorpos”; às vezes significa apenas investigação incompleta, mas às vezes significa mesmo que o diagnóstico correto é outro.
Mensagem principal 3
- Em 1 frase: o diagnóstico mais confiável nasce da soma entre sintomas, exame neurológico, ressonância, líquor, eletroencefalograma e exclusão de imitadores.
- Por que isso importa: esse conjunto ajuda a separar casos verdadeiros dos falsos diagnósticos.
- A nuance: mesmo com tudo isso, ainda existem situações cinzentas que precisam de centros especializados.
Para quem este texto é útil
Este texto é útil para:
- quem recebeu suspeita de encefalite autoimune
- familiares de alguém com mudança rápida de comportamento, memória ou consciência
- pessoas que ouviram que “os anticorpos vieram negativos”
- pacientes em investigação de psicose de início recente, crises epilépticas novas ou encefalite sem causa clara
- cuidadores que querem entender por que os médicos pedem tantos exames e por que o diagnóstico nem sempre é imediato
O que é encefalite autoimune, em linguagem simples?
É uma condição em que o sistema imune, que deveria proteger o corpo, passa a atacar estruturas do cérebro por engano. Uma analogia útil é a de um alarme de incêndio disparando no lugar errado: há ativação de defesa, mas contra o próprio sistema nervoso.
Isso pode causar:
- perda de memória recente
- confusão mental
- comportamento incomum
- agitação
- alucinações ou delírios
- crises epilépticas
- movimentos anormais
- alterações do sono
- catatonia, que é um estado de grande redução de movimento e resposta
- diminuição do nível de consciência
Nem todo paciente terá todos esses sinais. Algumas formas têm um “jeito” mais típico, como a encefalite anti-NMDAR, a encefalite por LGI1 ou a encefalite límbica, mas outras são mais difíceis de classificar.
Isso costuma ser grave?
Pode ser. Alguns casos exigem internação, unidade de terapia intensiva e tratamento rápido. Outros começam de forma mais branda. O ponto principal não é entrar em pânico, e sim entender que mudanças neurológicas ou psiquiátricas rápidas, especialmente ao longo de dias ou poucas semanas, merecem avaliação urgente.
Como isso aparece no dia a dia?
Na vida real, a encefalite autoimune pode parecer várias doenças diferentes no começo. A pessoa pode:
- “virar outra pessoa” em poucos dias
- ficar esquecida e desorganizada
- falar coisas desconexas
- ter medo intenso, agitação ou retraimento
- ter uma primeira crise epiléptica
- parar de dormir direito
- apresentar movimentos estranhos
- parecer estar com quadro psiquiátrico primário, como uma psicose
É justamente por isso que o diagnóstico é desafiador. A doença pode imitar infecção do sistema nervoso, transtornos psiquiátricos, efeitos de drogas, linfoma do sistema nervoso central, doença de Creutzfeldt-Jakob e várias outras condições.
Como os médicos começam a suspeitar?
Os dois textos reforçam três requisitos mínimos para considerar encefalite autoimune possível:
-
Início subagudo, ou seja, progressão rápida em menos de 3 meses, com um ou mais destes:
- perda de memória recente
- alteração do estado mental
- sintomas psiquiátricos
-
Pelo menos um destes achados de apoio:
- novo déficit neurológico focal
- crise epiléptica sem explicação alternativa
- pleocitose no líquor, que é aumento de células no exame do líquor
- ressonância magnética sugestiva de encefalite
-
Exclusão razoável de outras causas
Esse terceiro item é decisivo. Não adianta o quadro “parecer” autoimune se outra causa explicar melhor o caso.
O que costuma gerar erro no diagnóstico?
Os autores do texto da Lancet Neurology foram diretos: muitos erros acontecem por três motivos.
1) Os critérios mínimos não são respeitados
Um erro comum é chamar de encefalite autoimune um quadro:
- crônico, com mais de 3 meses
- sem inflamação no líquor
- sem inflamação na ressonância
- com pistas fortes para outro diagnóstico
2) A investigação inflamatório é insuficiente
Ressonância e líquor podem mostrar sinais objetivos de inflamação. Quando isso não é bem avaliado, o risco de erro aumenta.
3) A pesquisa de anticorpos é incompleta
Nem todo painel comercial procura todos os anticorpos relevantes. Além disso, alguns anticorpos são mais sensíveis no líquor, outros no sangue, e algumas técnicas aumentam muito a confiabilidade.
Por que “anticorpo negativo” não resolve tudo?
Esse é um dos pontos mais importantes do artigo.
Muitos casos foram chamados de “soronegativos”, mas o termo é problemático porque:
- às vezes o líquor nem foi testado
- às vezes só um painel pequeno foi usado
- às vezes faltaram técnicas mais robustas
- às vezes o anticorpo existia, mas não estava incluído no teste
Por isso, os autores preferem o termo encefalite autoimune com anticorpos não detectados (antibody-negative autoimmune encephalitis), e defendem que todo caso descreva claramente:
- quais anticorpos foram pesquisados
- em quais amostras, sangue, líquor ou ambos
- por quais métodos
Na prática, um resultado negativo pode significar pelo menos três coisas:
- o anticorpo realmente não foi encontrado
- o teste não era bom o bastante para achá-lo
- o diagnóstico correto talvez não seja encefalite autoimune
Quais exames costumam entrar na investigação inicial?
A diretriz canadense recomenda quatro pilares para casos suspeitos:
- líquor
- ressonância magnética do encéfalo
- eletroencefalograma
- painel amplo de anticorpos neurais
O que o líquor pode mostrar?
O líquor pode revelar:
- aumento de células inflamatórias
- bandas oligoclonais, que são sinais de produção de anticorpos dentro do sistema nervoso
- índice de IgG elevado, que também sugere atividade imune
- proteína aumentada
Mas há uma nuance importante: o líquor pode estar normal em parte dos pacientes. Isso não exclui totalmente o diagnóstico, mas reduz a certeza e exige mais cautela.
O que a ressonância pode mostrar?
Alguns padrões ajudam:
- alterações nos lobos temporais mediais na encefalite límbica
- lesões córtico-subcorticais em encefalite por receptor GABA-A
- lesões corticais em algumas formas associadas a MOG
Mesmo assim, a ressonância pode ser normal, principalmente no início.
O que o eletroencefalograma pode mostrar?
Ele pode mostrar lentificação, irritação cerebral ou alterações compatíveis com envolvimento límbico. É um exame de apoio, não um martelo definitivo.
Sangue e líquor: por que os dois importam?
Porque a sensibilidade muda conforme o anticorpo.
A diretriz destaca que:
- LGI1 e CASPR2 podem ser mais sensíveis no soro
- NMDAR e GFAP costumam ser mais sensíveis e específicos no líquor
Então, quando possível, a investigação ideal inclui sangue e líquor.
Quais testes de anticorpos têm mais valor?
O ponto central não é apenas “dar positivo”, e sim dar positivo com significado clínico.
Os textos alertam para armadilhas clássicas:
- VGKC positivo sem LGI1 ou CASPR2 não deve ser tratado como sinônimo de encefalite autoimune bem definida
- anticorpos tireoidianos não sustentam, sozinhos, causa autoimune neurológica
- GAD65 tem muito mais peso quando aparece em títulos altos e, idealmente, com evidência de síntese intratecal, ou seja, produção dentro do sistema nervoso
Também há forte ênfase em técnicas mais robustas, como:
- ensaios baseados em células
- imunofluorescência ou imuno-histoquímica em tecido cerebral
- em centros especializados, estudos com neurônios vivos
Quais doenças mais confundem o diagnóstico?
Os textos listam muitos diagnósticos alternativos. Em linguagem simples, os principais grupos são:
Infecções
- herpes simples
- neurossífilis
- HIV
- outras infecções do sistema nervoso
Doenças não infecciosas que imitam encefalite
- encefalopatia metabólica, como alterações graves de sódio ou glicose
- toxicidade por medicamentos e drogas
- linfoma ou glioma
- vasculites
- doenças reumatológicas sistêmicas
- doença de Creutzfeldt-Jakob
- epilepsias
- doenças mitocondriais
- doenças neurodegenerativas rapidamente progressivas
- transtornos psiquiátricos primários
Situações que pedem atenção especial
- psicose de início recente
- NORSE, que é estado de mal epiléptico refratário de início novo
- PANDAS e PANS em crianças
- doença por IgLON5
- encefalite por receptor GABA-A
- encefalite cortical associada a MOG
Quando um caso pode ser chamado de “provável encefalite autoimune com anticorpos não detectados”?
Os critérios citados exigem:
- progressão rápida, em menos de 3 meses, com perda de memória recente, alteração mental ou sintomas psiquiátricos
- exclusão de síndromes autoimunes bem definidas, como encefalite límbica, ADEM e encefalite de Bickerstaff
- ausência de autoanticorpos bem caracterizados no sangue e no líquor
- pelo menos dois marcadores de apoio entre:
- ressonância sugestiva
- líquor inflamatório
- bandas oligoclonais ou índice de IgG elevado
- biópsia cerebral com infiltrado inflamatório e exclusão de outras causas
- exclusão razoável de diagnósticos alternativos
Isso é importante porque esse grupo é justamente o mais vulnerável a erro diagnóstico.
Como o guideline canadense orienta o tratamento inicial?
A diretriz defende uma abordagem prática e precoce quando a suspeita é forte e as principais alternativas, especialmente infecção, já foram razoavelmente afastadas.
Casos graves
Sugere:
- corticoide intravenoso em alta dose
- e
- imunoglobulina intravenosa ou plasmaférese
Casos leves ou moderados
Em alguns cenários, pode-se considerar corticoide isolado, de preferência com apoio de especialista.
Se houver tumor
O tratamento do tumor deve acontecer em paralelo com a imunoterapia.
Quando escalar o tratamento?
- nos casos graves, se não houver melhora ou houver piora em 5 a 10 dias
- nos casos leves ou moderados, se não houver melhora ou houver piora em 2 a 4 semanas
Segunda linha
Para quadros por anticorpos de superfície ou quadros sem anticorpos detectados, o rituximabe é geralmente preferido como segunda linha. Em doenças relacionadas a anticorpos intracelulares e síndromes paraneoplásicas clássicas, a ciclofosfamida pode ganhar mais espaço.
É preciso procurar câncer?
Em adultos com nova apresentação de encefalite autoimune, a diretriz recomenda rastreio de neoplasia, porque parte desses quadros pode ter relação com tumor.
O rastreio inicial costuma incluir:
- tomografias do corpo
- exames dirigidos por sexo e idade, como imagem de ovários, testículos ou mama
- PET em situações selecionadas
Se nenhum tumor for encontrado, alguns pacientes precisam vigilância repetida por meses ou anos, especialmente quando há anticorpos de maior risco oncológico ou fenótipo clínico de maior risco.
O exemplo clínico que ajuda a entender a armadilha
O artigo da Lancet Neurology descreve um homem de 35 anos com:
- cefaleia
- febre
- náuseas e vômitos
- confusão
- agitação
- comportamento obsessivo
- mutismo
- líquor inflamatório
Os testes neurais iniciais foram negativos. Depois, com investigação mais ampla, foram encontrados anticorpos contra mGluR5 no sangue e no líquor. O paciente tinha linfoma de Hodgkin, e o quadro era compatível com encefalite anti-mGluR5, também chamada de síndrome de Ofélia.
A lição é clara: um caso rotulado como “soronegativo” pode deixar de ser negativo quando os exames são aprofundados.
O que isso muda na prática para pacientes e famílias?
Muda muito.
1) Nem todo quadro psiquiátrico agudo é psiquiátrico
Mudanças rápidas de comportamento, especialmente se vierem com crise epiléptica, catatonia, alteração de consciência ou alterações em exames, precisam de investigação neurológica.
2) Nem todo exame negativo tranquiliza de verdade
Às vezes ele tranquiliza; às vezes só mostra que ainda falta investigar melhor.
3) Nem todo caso com suspeita merece imunoterapia prolongada
Se a resposta objetiva não acontece e a base diagnóstica é fraca, insistir indefinidamente pode expor a pessoa a riscos sem benefício claro.
4) Centros especializados fazem diferença
Eles têm mais experiência para:
- reconhecer padrões clínicos
- revisar diagnósticos alternativos
- usar testes mais completos
- interpretar resultados duvidosos
- decidir quando tratar e quando recuar
Um exemplo do dia a dia
Pense em duas pessoas que chegam ao hospital com confusão e comportamento estranho.
- A primeira teve febre, piorou em poucos dias, apresentou crise epiléptica, o líquor veio inflamatório e o EEG mostrou sofrimento cerebral. Aqui a suspeita de encefalite autoimune ou infecciosa sobe muito.
- A segunda tem meses de sintomas, ressonância e líquor normais, sem crise epiléptica e com sinais de outro transtorno mais provável. Aqui chamar de encefalite autoimune cedo demais pode ser um erro.
A diferença entre essas histórias não está em um único exame, mas no conjunto.
Teste rápido: quando a suspeita costuma merecer mais atenção?
Responda mentalmente:
- Os sintomas começaram e pioraram em dias ou semanas, e não ao longo de muitos meses?
- Existe perda de memória recente, confusão, mudança marcante de comportamento ou sintomas psiquiátricos novos?
- Houve crise epiléptica nova, movimento estranho, rebaixamento do nível de consciência ou déficit neurológico focal?
- O líquor, a ressonância ou o EEG mostram algo compatível com inflamação?
- Já foram consideradas infecção, tumor, causas metabólicas, drogas e causas psiquiátricas primárias?
Quanto mais respostas “sim”, maior a necessidade de investigação cuidadosa. Mas isso não fecha o diagnóstico sozinho.
O que vale perguntar ao médico?
- Meu quadro realmente preenche critérios mínimos de suspeita de encefalite autoimune?
- O líquor foi analisado com estudo inflamatório completo?
- Os anticorpos foram pesquisados no sangue e no líquor?
- O laboratório usa painel amplo e técnicas confiáveis?
- Que diagnósticos alternativos ainda estão na mesa?
- Há necessidade de repetir ressonância, líquor ou EEG?
- Existe indicação de rastreio de tumor?
- Quais sinais objetivos vocês vão usar para medir resposta ao tratamento?
- Em que momento vocês reconsideram o diagnóstico se não houver melhora?
FAQ
Medo
1) Encefalite autoimune é sempre uma emergência?
Não sempre, mas muitas vezes exige avaliação rápida. Quando há piora em dias ou semanas, confusão, crise epiléptica, alteração de consciência ou comportamento muito fora do padrão, a situação merece atenção urgente.
2) Um teste de anticorpos negativo exclui a doença?
Não. Ele reduz a chance em alguns cenários, mas não exclui sozinho. O resultado precisa ser interpretado junto com líquor, ressonância, EEG e quadro clínico.
3) Isso pode ser confundido com doença psiquiátrica?
Pode. Esse é um dos grandes desafios. Alguns quadros começam com sintomas psiquiátricos, mas sinais neurológicos, exames alterados e progressão rápida ajudam a diferenciar.
Dia a dia
4) A pessoa pode parecer “normal” em alguns momentos?
Sim. Alguns pacientes flutuam ao longo do dia. Isso não invalida a investigação, principalmente se houver outros achados objetivos.
5) A ressonância normal descarta encefalite autoimune?
Não. A ressonância pode ser normal no início ou em alguns subtipos. Por isso, o diagnóstico não depende só dela.
6) O líquor normal exclui o problema?
Também não exclui completamente. Porém, em um caso com pouca evidência inflamatória, a cautela aumenta e os médicos precisam revisar melhor outras hipóteses.
Tratamento
7) O tratamento deve esperar o resultado dos anticorpos?
Nem sempre. Quando a suspeita clínica é forte e infecção e outras causas principais já foram razoavelmente afastadas, o tratamento pode começar antes do resultado final dos anticorpos.
8) Corticoide, imunoglobulina e plasmaférese significam que o diagnóstico já está 100% fechado?
Não. Às vezes existe uma tentativa terapêutica controlada em cenário de forte suspeita. O ideal é definir antes quais sinais objetivos indicarão resposta real.
9) Se não melhorar com tratamento, isso quer dizer que nunca foi encefalite autoimune?
Não necessariamente, mas enfraquece a hipótese e obriga a revisar o caso. Os autores defendem reavaliação rigorosa e cautela antes de escalar terapias cada vez mais agressivas.
Futuro
10) Quem melhora pode ficar com sequelas?
Pode. Mesmo com recuperação funcional boa, algumas pessoas permanecem com dificuldades de memória, atenção, velocidade de raciocínio ou sintomas psiquiátricos residuais.
11) Existe risco de câncer por trás do quadro?
Em alguns subtipos, sim. Por isso, adultos com novo quadro de encefalite autoimune geralmente precisam de rastreio oncológico.
Ação
12) O que a família deve observar e anotar?
Vale anotar data de início, velocidade da piora, crises epilépticas, febre, alterações do sono, comportamento, memória, fala, movimentos estranhos e resultados de exames. Essa linha do tempo ajuda muito a equipe médica.
Checklist de agência
Sinais de alerta
- piora rápida em dias ou poucas semanas
- confusão mental
- comportamento muito diferente do habitual
- primeira crise epiléptica
- rebaixamento do nível de consciência
- catatonia
- movimentos anormais novos
- febre ou cefaleia junto com sintomas neurológicos
- déficit focal, como fraqueza, alteração de fala ou assimetria
Perguntas para a consulta
- Quais critérios do meu caso apoiam encefalite autoimune?
- Quais achados falam contra?
- O sangue e o líquor foram testados?
- Há necessidade de repetir algum exame?
- Quais diagnósticos alternativos ainda precisam ser descartados?
- Há indicação de rastrear tumor?
- Como vocês vão medir melhora objetiva?
Hábitos úteis durante a investigação
- levar um acompanhante que conheça bem o paciente
- manter uma linha do tempo dos sintomas
- guardar laudos de ressonância, EEG e líquor
- anotar medicamentos usados antes e depois do início do quadro
- informar histórico pessoal ou familiar de autoimunidade, quando houver
O que não fazer sozinho
- não iniciar ou suspender imunossupressores por conta própria
- não interpretar um exame isolado como diagnóstico final
- não concluir que “é psiquiátrico” ou “é autoimune” sem integrar todos os dados
- não prolongar tratamentos agressivos sem reavaliar resposta objetiva
Quando buscar ajuda urgente
- crise epiléptica
- queda do nível de consciência
- agitação intensa com risco para si ou para outros
- piora rápida da confusão
- dificuldade para respirar ou proteger vias aéreas
- sinais neurológicos focais novos
O que este estudo/guia NÃO prova
- Não prova que todo quadro com sintomas psiquiátricos rápidos seja encefalite autoimune.
- Não prova que um teste negativo de anticorpos signifique automaticamente “forma soronegativa”.
- Não prova que imunoterapia deva ser mantida indefinidamente quando o paciente não melhora.
- Não prova que todos os laboratórios tenham a mesma capacidade para detectar anticorpos neurais.
- Não substitui avaliação individual, nem resolve sozinho os casos mais ambíguos.
⚕️ IMPORTANTE
• Este conteúdo resume um estudo científico e não substitui consulta médica.
• Se você tem sintomas ou dúvidas, converse com um profissional de saúde.
• Não interrompa ou inicie medicamentos por conta própria.
• Cada pessoa é única — o que vale para o grupo do estudo pode não valer para você.
Referência científica:
DALMAU, Josep; GRAUS, Francesc. Diagnostic criteria for autoimmune encephalitis: utility and pitfalls for antibody-negative disease. The Lancet Neurology, [S. l.], v. 22, n. 6, p. 529-540, 2023. DOI: NR.
HAHN, Christopher et al. Canadian Consensus Guidelines for the Diagnosis and Treatment of Autoimmune Encephalitis in Adults. The Canadian Journal of Neurological Sciences, [S. l.], v. 51, p. 734-754, 2024. DOI: https://doi.org/10.1017/cjn.2024.16.
✍️ Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347
Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética
Hospital das Clínicas da FMUSP
📍 Consultório em Pinheiros, São Paulo/SP
🌐 Site: https://drthiagoguimaraesneuro.com/
🎬 YouTube: https://www.youtube.com/@DrThiagoGGuimaraes
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Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica.
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