DNAJC6: quando o parkinsonismo aparece na adolescência
Alterações nos dois lados do gene DNAJC6 podem causar uma forma rara de parkinsonismo juvenil, geralmente com tremor, lentidão, rigidez, distonia e sinais de regressão neurológica. O estudo descreveu dois irmãos brasileiros com uma nova variante, p.Cys325*, reforçando a importância da investigação genética em crianças e adolescentes com esse padrão.
Publicado em 8 de julho de 2026
Entenda o que é o parkinsonismo juvenil por DNAJC6, uma causa genética rara que pode provocar tremor, lentidão, distonia, dificuldade para engolir e regressão neurológica em crianças e adolescentes.


Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.
Resposta curta
Algumas formas de parkinsonismo podem aparecer ainda na infância ou adolescência. Uma delas é causada por alterações nos dois lados do gene DNAJC6, uma condição rara chamada PARK-DNAJC6 ou, historicamente, PARK19.
Esse quadro não é a doença de Parkinson comum do idoso. Ele costuma ser mais raro, mais complexo e pode vir junto com tremor, lentidão, rigidez, distonia, dificuldade para engolir, epilepsia, alteração da fala e perda de habilidades.
Um estudo brasileiro descreveu dois irmãos com uma nova variante no gene DNAJC6, chamada p.Cys325*. Esse estudo tem uma relevância especial para mim: eu, Dr. Thiago G. Guimarães, compartilho a primeira autoria com o Dr. André Luiz Santos Pessoa.
A principal mensagem para pacientes e famílias é simples: quando uma criança ou adolescente desenvolve parkinsonismo, especialmente se houver distonia, engasgos, epilepsia ou regressão neurológica, a possibilidade de uma causa genética rara deve ser considerada.
Em 30 segundos
O gene DNAJC6 ajuda os neurônios a manterem uma parte importante da comunicação entre eles. Quando há alterações graves nas duas cópias desse gene, a comunicação cerebral pode ser afetada.
No estudo, dois irmãos brasileiros apresentaram um quadro rapidamente progressivo, com tremor, lentidão, rigidez, distonia, dificuldade para falar e engolir, prejuízo cognitivo e grande perda funcional.
A variante encontrada, p.Cys325*, ainda não havia sido descrita na literatura médica. Ela provavelmente interrompe a produção normal da proteína relacionada ao gene, o que combina com o mecanismo esperado da doença.
A levodopa, medicamento muito usado na doença de Parkinson, trouxe apenas melhora leve. Em doses maiores, houve piora de alguns movimentos, incluindo crises com desvio sustentado dos olhos para cima, chamadas crises oculógiras.
O estudo não muda o cuidado de todas as pessoas com tremor. Ele ajuda a reconhecer um padrão raro, mas importante, em crianças e adolescentes com sintomas neurológicos progressivos.

O que importa de verdade
Mensagem 1
- Em 1 frase: parkinsonismo em criança ou adolescente merece uma investigação diferente do Parkinson comum.
- Por que isso importa: causas genéticas, metabólicas e raras podem estar por trás do quadro.
- A nuance: tremor isolado nem sempre significa doença genética; o alerta aumenta quando há progressão, distonia, epilepsia, engasgos ou perda de habilidades.
Mensagem 2
- Em 1 frase: a ressonância normal não exclui uma doença genética do movimento.
- Por que isso importa: nos dois irmãos descritos, a ressonância cerebral não mostrou uma lesão estrutural que explicasse tudo.
- A nuance: a ressonância continua sendo importante, mas pode não ser suficiente para fechar o diagnóstico.
Mensagem 3
- Em 1 frase: a levodopa pode ajudar pouco e precisa ser monitorada de perto em PARK-DNAJC6.
- Por que isso importa: em alguns pacientes, doses maiores podem piorar movimentos ou provocar efeitos indesejados.
- A nuance: isso não significa que levodopa nunca deva ser testada; significa que o teste deve ser individualizado e acompanhado por especialista.
Para quem este texto é útil?
Este texto é útil para famílias de crianças ou adolescentes com tremor progressivo, pacientes jovens com lentidão, rigidez ou distonia, cuidadores de pessoas com perda de fala, engasgos ou piora rápida da marcha, pessoas com histórico familiar de doenças neurológicas raras e profissionais de saúde que desejam reconhecer sinais de alerta para investigação genética.
O objetivo não é assustar. A maioria dos tremores em jovens não é causada por DNAJC6. O ponto é outro: quando o quadro tem vários sinais neurológicos juntos e piora rápido, vale pensar além das causas mais comuns.
O que é isso, em linguagem simples?
Parkinsonismo é um conjunto de sinais que lembra a doença de Parkinson: lentidão, rigidez, tremor e dificuldade para manter o equilíbrio.
Distonia é uma contração muscular involuntária que pode torcer uma parte do corpo, mudar a postura ou deixar um movimento "preso".
DNAJC6 é um gene. Genes funcionam como instruções do corpo. Quando existe uma alteração importante nas duas cópias desse gene, alguns neurônios podem não conseguir manter bem sua comunicação.
Uma analogia útil é imaginar o neurônio como uma estação de envio de mensagens. Para funcionar bem, ele precisa liberar e reciclar pequenas "embalagens" de comunicação. O DNAJC6 participa dessa reciclagem. Se esse sistema falha, a comunicação entre neurônios pode se tornar menos eficiente.
Isso pode afetar áreas ligadas ao movimento, fala, deglutição e cognição.
Como isso aparece no dia a dia?
No estudo, os sinais principais foram progressivos. Isso significa que os sintomas não ficaram estáveis: eles foram piorando com o tempo.
| Sinal | Como a família pode perceber |
|---|---|
| Tremor | mãos, cabeça ou corpo tremendo de forma persistente |
| Lentidão | demora para andar, levantar, vestir-se ou iniciar movimentos |
| Rigidez | corpo mais duro, postura travada ou movimentos menos soltos |
| Distonia | pescoço virando, mandíbula abrindo, tronco torcendo ou postura anormal |
| Disfagia | engasgos, tosse ao comer, demora para alimentar-se |
| Disartria | fala enrolada, fraca ou difícil de entender |
| Sialorreia | excesso de saliva ou dificuldade de controlar a saliva |
| Perda cognitiva | dificuldade para seguir comandos, comunicar-se ou manter habilidades |
| Epilepsia | crises, episódios de olhar parado ou movimentos anormais associados |
| Perda de marcha | quedas, necessidade de apoio, cadeira de rodas ou dependência |
No parkinsonismo juvenil por DNAJC6, a parte motora é importante, mas a fala, a deglutição e a nutrição podem se tornar problemas centrais.

Como o estudo foi feito?
O artigo descreveu dois irmãos brasileiros com quadro neurológico progressivo.
Os pesquisadores avaliaram a história clínica, o exame neurológico, exames de imagem, eletroencefalograma e sequenciamento genético.
O exame genético encontrou a mesma variante em ambos os irmãos:
DNAJC6: NM_001256864.2:c.975C>A, p.Cys325*
Essa variante é chamada de nonsense. Em linguagem simples, é como se uma frase do manual genético recebesse um "ponto final" antes da hora. O resultado provável é uma proteína incompleta ou ausente.
O estudo também fez uma revisão da literatura em bases científicas e encontrou 23 pacientes previamente descritos com alterações em DNAJC6. Com os dois novos casos, a análise passou a considerar 25 pacientes.
O que o estudo encontrou?
O estudo encontrou uma nova variante provavelmente patogênica em DNAJC6, associada a um quadro grave e precoce.
Nos dois irmãos, houve início na infância ou adolescência, tremor, lentidão e rigidez, distonia, dificuldade de fala, dificuldade para engolir, prejuízo cognitivo, perda funcional importante, ressonância cerebral sem alteração explicativa relevante e resposta apenas leve à levodopa.
Na revisão da literatura, a forma juvenil de DNAJC6 apareceu frequentemente com início antes dos 20 anos, progressão rápida, instabilidade postural, distonia e sintomas bulbares.
Sintomas bulbares são problemas relacionados a funções como fala, deglutição e controle de saliva. Eles recebem esse nome porque envolvem circuitos neurológicos ligados ao tronco cerebral e a redes motoras que controlam essas funções.
Um ponto prático importante: a imagem cerebral pode não mostrar uma lesão clara. Por isso, quando a história clínica sugere uma doença genética, o exame genético pode ser decisivo.

O que isso muda na prática?
Este estudo não cria uma recomendação universal para todos os jovens com tremor. Ele ajuda a reconhecer um padrão.
Na prática, a suspeita de uma causa genética rara aumenta quando há combinação de início na infância ou adolescência, tremor associado a lentidão e rigidez, distonia, piora rápida da marcha, perda de fala ou comunicação, engasgos, epilepsia, perda de habilidades cognitivas ou motoras, histórico familiar ou consanguinidade e ressonância normal ou pouco explicativa.
O estudo também reforça que o tratamento precisa ser amplo. Não basta pensar só em remédio para tremor ou rigidez.
A pessoa pode precisar de neurologia especializada em distúrbios do movimento e neurogenética, fonoaudiologia para fala e deglutição, avaliação nutricional, fisioterapia, terapia ocupacional, controle de epilepsia, avaliação respiratória se houver risco de aspiração e aconselhamento genético familiar.

Teste rápido: quando o tremor em jovem merece investigação mais ampla?
Este bloco não fecha diagnóstico. Ele serve para organizar a conversa com o médico.
Procure avaliação especializada se o tremor vier junto com um ou mais destes sinais:
- lentidão progressiva;
- rigidez;
- queda ou perda de equilíbrio;
- postura anormal do pescoço, mandíbula, tronco ou membros;
- engasgos frequentes;
- fala piorando;
- crises epilépticas;
- regressão escolar, cognitiva ou funcional;
- perda de marcha;
- histórico familiar de doença neurológica rara;
- sintomas que pioram em meses ou poucos anos.
Se houver engasgos importantes, perda de peso, pneumonias por aspiração ou sonolência após crises, a avaliação deve ser mais urgente.
O que vale perguntar ao médico?
Algumas perguntas podem ajudar a consulta:
- Esse quadro é compatível com parkinsonismo, distonia ou ambos?
- A idade de início sugere investigação genética?
- A ressonância normal muda algo na suspeita?
- Há sinais de risco para deglutição ou aspiração?
- Faz sentido investigar genes ligados a parkinsonismo juvenil?
- O exame deve ser painel genético, exoma ou outro teste?
- A levodopa deve ser testada? Como monitorar efeitos adversos?
- Há indicação de fonoaudiologia para deglutição?
- A família precisa de aconselhamento genético?
- Existem outras causas tratáveis que precisam ser descartadas?

FAQ
Medo
Isso é doença de Parkinson comum?
Não exatamente. É uma forma genética rara de parkinsonismo, geralmente mais complexa do que a doença de Parkinson típica.
Na doença de Parkinson comum, o início costuma ocorrer em idade mais avançada. No PARK-DNAJC6, o início pode acontecer na infância ou adolescência e vir acompanhado de distonia, epilepsia, dificuldade para engolir e perda de habilidades.
Esse quadro costuma ser grave?
Pode ser grave, especialmente na forma juvenil. No estudo, os dois irmãos tiveram progressão rápida e perda funcional importante.
Isso não significa que todo jovem com tremor terá esse diagnóstico. A gravidade depende do conjunto de sinais, da evolução e da causa.
Ressonância normal tranquiliza completamente?
Não. A ressonância normal é uma boa notícia contra várias causas estruturais, mas não exclui doença genética.
No estudo, a ressonância dos dois irmãos não explicava o quadro, e o diagnóstico veio pelo exame genético.
Dia a dia
Quais sinais a família costuma notar primeiro?
Pode começar com tremor, lentidão, rigidez, alteração da marcha ou crises epilépticas.
Com a evolução, podem aparecer postura anormal, dificuldade para falar, engasgos, perda de equilíbrio e maior dependência para atividades diárias.
Engasgos são importantes nesse tipo de doença?
Sim. Engasgos podem indicar disfagia, que é dificuldade para engolir com segurança.
Isso importa porque aumenta risco de perda de peso, desidratação e broncoaspiração, que é a entrada de alimento ou saliva nas vias respiratórias.
A fala pode piorar?
Pode. Alguns pacientes desenvolvem disartria, que é fala fraca, lenta ou difícil de entender.
Em casos mais graves, pode haver grande perda da comunicação verbal. Por isso, fonoaudiologia e estratégias alternativas de comunicação podem ser importantes.
Tratamento
Levodopa funciona?
Pode funcionar pouco, muito ou quase nada, dependendo do caso. No estudo, a melhora foi apenas leve.
Em alguns momentos, doses maiores se associaram a piora de movimentos, como crises oculógiras. Por isso, o uso precisa ser individualizado.
Existe cura?
Atualmente, não há cura estabelecida para PARK-DNAJC6.
O tratamento é voltado para sintomas, segurança, nutrição, mobilidade, comunicação, prevenção de complicações e apoio à família.
DBS ou cirurgia ajudam?
Ainda não há resposta firme. A literatura é limitada, e poucos pacientes foram tratados com estimulação cerebral profunda.
A decisão sobre cirurgia em doenças genéticas raras exige análise muito cuidadosa do fenótipo, dos riscos e dos objetivos realistas.
Futuro
Terapia gênica já existe para DNAJC6?
Ainda não como tratamento clínico estabelecido.
O artigo menciona estudos pré-clínicos promissores, mas isso ainda não significa tratamento disponível para pacientes. É uma linha de pesquisa, não uma promessa atual.
Esse diagnóstico muda o risco para a família?
Pode mudar. PARK-DNAJC6 é uma condição autossômica recessiva, ou seja, geralmente ocorre quando a pessoa herda uma alteração de cada lado da família.
Por isso, aconselhamento genético pode ser útil para entender risco familiar, testagem de parentes e planejamento reprodutivo.
Ação
Quando procurar um especialista?
Procure avaliação se houver tremor progressivo em criança ou adolescente junto com lentidão, rigidez, distonia, engasgos, crises epilépticas, quedas ou perda de habilidades.
O ideal é avaliação com neurologista, preferencialmente com experiência em distúrbios do movimento e neurogenética.
Checklist de agência
Sinais de alerta
- Tremor progressivo em criança ou adolescente.
- Lentidão e rigidez associadas ao tremor.
- Postura anormal do pescoço, mandíbula, tronco ou membros.
- Quedas ou perda rápida da marcha.
- Engasgos, tosse ao comer ou pneumonias de repetição.
- Perda de fala ou piora importante da comunicação.
- Crises epilépticas.
- Perda de habilidades motoras, cognitivas ou escolares.
- Histórico familiar de doença neurológica rara.
- Pais consanguíneos ou origem familiar comum.
Perguntas para consulta
- O quadro parece parkinsonismo juvenil?
- Existe distonia associada?
- Há risco de disfagia?
- Quais causas tratáveis precisam ser descartadas?
- A investigação genética está indicada?
- Qual exame genético é mais apropriado?
- A levodopa deve ser testada com que objetivo?
- Como monitorar efeitos adversos?
- Que profissionais devem compor a equipe?
- A família deve receber aconselhamento genético?
O que não fazer sozinho
- Não iniciar levodopa ou ajustar dose sem orientação.
- Não suspender anticonvulsivante por conta própria.
- Não ignorar engasgos frequentes.
- Não atribuir perda de habilidades apenas a "comportamento".
- Não concluir que ressonância normal descarta doença neurológica.
Quando buscar ajuda urgente
Procure atendimento urgente se houver:
- engasgo importante com falta de ar;
- pneumonia suspeita após engasgos;
- perda rápida de peso ou desidratação;
- crise epiléptica prolongada;
- sonolência persistente após crise;
- piora súbita da marcha, fala ou consciência;
- dificuldade respiratória.
O que este estudo/guia NÃO prova
- Não prova que todo parkinsonismo juvenil seja causado por DNAJC6.
- Não prova que a variante p.Cys325* explique todos os casos semelhantes.
- Não define o melhor tratamento para todos os pacientes com PARK-DNAJC6.
- Não demonstra que levodopa seja sempre benéfica ou sempre prejudicial.
- Não transforma pesquisas pré-clínicas, como terapia gênica experimental, em tratamento disponível na prática clínica.
Bloco de segurança
⚕️ IMPORTANTE
Este conteúdo resume um estudo científico e não substitui consulta médica.
Se você tem sintomas ou dúvidas, converse com um profissional de saúde. Não interrompa ou inicie medicamentos por conta própria. Cada pessoa é única: o que vale para o grupo do estudo pode não valer para você.
Referência ABNT
PESSOA, André Luiz Santos; GUIMARÃES, Thiago Gonçalves et al. Novel Homozygous Pathogenic Variant in DNAJC6 Causes Rapid Progressive Parkinsonism. Movement Disorders Clinical Practice, 2026. DOI: 10.1002/mdc3.70731.
Assinatura
✍️ Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347
Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética
Hospital das Clínicas da FMUSP
📍 Consultório em Pinheiros, São Paulo/SP
🌐 Site: drthiagoguimaraesneuro.com
🎬 YouTube: @DrThiagoGGuimaraes
📸 Instagram: @dr.thiagogguimaraes.neuro
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a consulta médica.
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