Ataxia de Friedreich: como a doença costuma evoluir ao longo do tempo?
Publicado em 2 de abril de 2026
Um grande estudo internacional ajuda a entender como a ataxia de Friedreich costuma evoluir, quais funções pioram mais cedo e por que idade de início e capacidade de andar importam na progressão.

Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347 | RQE 83752
Neurologista formado pela USP, especialista em Distúrbios do Movimento e Neurogenética. Corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês e Hospital Albert Einstein.
Ataxia de Friedreich: como a doença costuma evoluir ao longo do tempo?
Se você ou alguém da sua família recebeu o diagnóstico de ataxia de Friedreich, uma das perguntas mais difíceis costuma ser esta: o que esperar daqui para frente? Este estudo ajuda justamente nisso. Em mais de 1.100 pessoas acompanhadas ao longo dos anos, os pesquisadores observaram que a progressão da doença não é igual para todo mundo. Em geral, quem começa a doença mais cedo tende a piorar mais rápido, especialmente enquanto ainda anda. Nessa fase, a maior parte da piora vem de funções chamadas “axiais”, ou seja, equilíbrio, postura e marcha. Depois da perda da marcha, o padrão muda, e passam a pesar mais as funções de membros, como braços e pernas.
Na prática, isso não permite prever com exatidão o futuro de uma pessoa específica. Mas ajuda a entender duas coisas importantes: primeiro, que a ataxia de Friedreich tem uma evolução muito variável; segundo, que idade de início e capacidade de andar são chaves para interpretar essa evolução. O estudo também reforça que, em doenças raras, comparar pessoas muito diferentes no mesmo grupo pode confundir a leitura dos resultados.
Resumo em 30 segundos
- A ataxia de Friedreich não evolui no mesmo ritmo em todas as pessoas.
- Em média, início mais precoce da doença se associa a progressão neurológica mais rápida.
- Enquanto a pessoa ainda anda, a piora é puxada principalmente por equilíbrio, postura e marcha.
- Depois da perda da marcha, braços e pernas passam a contribuir mais para a limitação funcional.
- O estudo é útil para entender tendências gerais da doença, mas não serve para prever exatamente o caso individual.
Quais são as mensagens principais deste estudo?
Mensagem 1
A progressão da ataxia de Friedreich é heterogênea.
Nível 2
Isso significa que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem evoluir de formas diferentes.
Nível 3
Parte dessa diferença se relaciona à idade de início dos sintomas. O estudo dividiu os participantes em grupos de início precoce, típico, intermediário e tardio, e mostrou ritmos distintos de piora entre eles.
Mensagem 2
Enquanto a pessoa ainda anda, equilíbrio e marcha são o principal motor da piora.
Nível 2
A escala usada no estudo mostrou que a parte mais sensível da progressão, nessa fase, foi a de estabilidade em pé e marcha.
Nível 3
Isso ajuda a explicar por que quedas, insegurança para andar e necessidade crescente de apoio costumam ser marcos tão importantes para pacientes e famílias.
Mensagem 3
Depois da perda da marcha, o padrão de limitação muda.
Nível 2
Nessa etapa, braços e pernas passam a pesar mais no declínio funcional.
Nível 3
Por isso, fases diferentes da doença exigem olhares diferentes para reabilitação, acompanhamento e metas de cuidado.
O que é a ataxia de Friedreich?
A ataxia de Friedreich é uma doença genética e neurodegenerativa, ou seja, causada por alteração herdada no material genético e associada a perda progressiva de função do sistema nervoso. Ela costuma afetar coordenação, marcha, equilíbrio e fala, entre outros domínios. O artigo lembra que, na maioria dos casos, a doença está ligada a expansões GAA no gene FXN, que participa da produção de frataxina, uma proteína mitocondrial. Cerca de 4% a 5% dos pacientes têm uma expansão em um alelo e uma outra mutação no outro.
Em linguagem simples, é como se o sistema nervoso perdesse, aos poucos, parte da sua capacidade de coordenar movimentos com precisão.
Como este estudo foi feito?
Este foi um grande estudo de história natural chamado FACOMS, que acompanha pessoas com ataxia de Friedreich desde 2003. Na análise apresentada, havia 1.115 participantes e 5.287 visitas anuais. Para evitar distorções da pandemia, foram usados dados coletados antes de 28 de abril de 2020.
Os pesquisadores avaliaram principalmente uma escala chamada mFARS. Em termos práticos, ela mede gravidade neurológica em diferentes áreas, incluindo:
- função bulbar, como fala e deglutição
- coordenação de membros superiores
- função de membros inferiores
- estabilidade em pé, postura e marcha
Além disso, o estudo analisou:
- uma escala de atividades de vida diária
- o teste de caminhada de 25 pés
- o teste dos 9 pinos, que mede destreza manual
- o estágio funcional da doença, incluindo perda da marcha
Os participantes foram estratificados por:
- idade de início dos sintomas
- idade atual
- presença ou não de capacidade de andar
Quem participou?
Os grupos de início da doença foram estes:
- 0 a 7 anos: início precoce, 324 pessoas, 29%
- 8 a 14 anos: início típico, 438 pessoas, 39%
- 15 a 24 anos: início intermediário, 234 pessoas, 21%
- acima de 24 anos: início tardio, 119 pessoas, 11%
No início do acompanhamento, 70% ainda andavam. Na visita mais recente, esse número caiu para 49%. O tempo mediano de seguimento foi de 5 anos, com intervalo interquartil de 3 a 10 anos.
Esses números são relevantes porque mostram que o estudo incluiu pessoas em fases bem diferentes da doença.
O que o estudo encontrou?
Quem começa a doença mais cedo tende a piorar mais rápido?
Em média, sim. O estudo mostrou que, independentemente da fase, a progressão foi mais rápida nas pessoas com início mais precoce.
Na fase em que ainda andavam, a piora média anual na escala total mFARS foi aproximadamente:
| Grupo de início | Piora média anual na mFARS |
|---|---|
| 0–7 anos | 2,62 pontos/ano |
| 8–14 anos | 1,83 pontos/ano |
| 15–24 anos | 1,24 pontos/ano |
| >24 anos | 1,18 pontos/ano |
Na prática, isso sugere que grupos com início mais precoce costumam ter uma trajetória mais agressiva. Mas ainda assim existe bastante variação entre indivíduos.
O que piora mais enquanto a pessoa ainda anda?
O principal motor da piora foi a parte da escala ligada a equilíbrio, postura e marcha, chamada no estudo de Upright Stability Score. Isso apareceu de forma consistente nos pacientes ainda ambulatórios.
Em termos simples: enquanto a pessoa ainda anda, a doença tende a se expressar muito através de:
- instabilidade
- maior risco de quedas
- dificuldade crescente para caminhar
- necessidade de apoio ou adaptação do ambiente
E depois da perda da marcha?
Depois da perda da marcha, a influência de equilíbrio e marcha obviamente diminui, e os componentes de membros superiores e inferiores passam a ter mais peso na progressão funcional.
Isso é importante porque muda o foco clínico. Nessa fase, atividades como manipular objetos, se alimentar, se vestir e realizar tarefas finas podem ganhar ainda mais relevância no dia a dia.
A idade atual também importa?
Sim. Quando os pesquisadores olharam mudanças de curto prazo por faixas etárias, viram que a progressão média anual foi maior nas idades mais baixas e caiu progressivamente com a idade.
Mas há uma nuance importante: crianças muito novas podem ter mais variabilidade nas medidas. Por isso, progressão mais rápida não significa necessariamente medida mais fácil de interpretar. O próprio artigo sugere cautela abaixo dos 8 anos.
Teste rápido: o que vale observar no dia a dia?
Este não é um teste diagnóstico. É apenas uma forma prática de organizar a conversa com o médico ou equipe de reabilitação.
Responda mentalmente:
- Houve mais tropeços ou quedas nos últimos meses?
- Ficou mais difícil subir escadas ou andar sem apoio?
- A pessoa passou a evitar certos trajetos por medo de cair?
- Tarefas finas com as mãos ficaram mais lentas?
- Houve maior dependência para atividades de rotina?
Se várias respostas forem “sim”, isso não define sozinho a velocidade da doença, mas pode sinalizar mudança funcional relevante que merece ser documentada.
O que isso significa na prática para pacientes e famílias?
1. Faz sentido acompanhar função, não só diagnóstico
O rótulo “ataxia de Friedreich” é o mesmo, mas a trajetória funcional pode variar bastante. O acompanhamento deve observar o que mudou na vida real.
2. Marcha e equilíbrio merecem atenção precoce
Como a piora durante a fase ambulatória foi puxada especialmente por essas funções, faz sentido monitorar:
- quedas
- necessidade de apoio
- insegurança em ambientes externos
- fadiga ao caminhar
- adaptação da casa
3. Depois da perda da marcha, as metas mudam
Nessa fase, conforto, autonomia, posicionamento, função de mãos e prevenção de complicações podem ganhar ainda mais prioridade.
4. O estudo ajuda a entender o grupo, não a adivinhar o indivíduo
Os próprios autores destacam que extrapolar achados populacionais para uma pessoa específica é imperfeito.
O que perguntar ao médico na consulta?
- Em que fase funcional da doença meu familiar está hoje?
- O principal problema no momento é mais marcha e equilíbrio ou mais função de mãos e pernas?
- Quais mudanças devo monitorar em casa?
- Há benefício em fisioterapia focada em equilíbrio, marcha ou transferência?
- Como reduzir risco de quedas?
- Quais adaptações domiciliares fazem mais sentido agora?
- Que sinais mostram que o plano de reabilitação precisa ser revisto?
- Quais objetivos realistas devemos priorizar nos próximos meses?
FAQ por categorias emocionais
Medo
1. “Esse estudo quer dizer que todos vão piorar rápido?”
Não. O estudo mostra tendência média de progressão, não destino fixo individual. Há bastante variação entre pessoas.
2. “Se começou cedo, o prognóstico é sempre pior?”
Em média, início mais precoce se associou a progressão mais rápida. Mas “em média” não significa que todos os casos seguirão exatamente esse padrão.
3. “Perder a marcha significa fase final?”
Não. O artigo lembra que muitas pessoas vivem por décadas depois da perda da marcha. Esse é um marco importante, mas não significa fim iminente.
Dia a dia
4. “O que costuma piorar primeiro?”
Na fase em que a pessoa ainda anda, o estudo sugere que a piora aparece sobretudo em equilíbrio, postura e marcha.
5. “Vale a pena registrar quedas e dificuldade para andar?”
Sim. Isso ajuda a mostrar mudanças funcionais reais ao longo do tempo e pode orientar reabilitação e medidas de segurança.
6. “Quando devo pensar em adaptar a casa?”
Sempre que houver tropeços, quedas, insegurança ao caminhar ou necessidade crescente de apoio. Corrimãos, retirada de tapetes soltos e melhor iluminação podem ser discutidos com a equipe.
Tratamento e acompanhamento
7. “Esse estudo testou algum remédio?”
Não. Este trabalho descreve a história natural da doença. Ele não compara um tratamento com placebo.
8. “Então para que esse tipo de estudo serve?”
Serve para entender como a doença costuma evoluir e para planejar melhor pesquisas, inclusive ensaios clínicos.
9. “Fisioterapia e reabilitação continuam importantes?”
Sim. Embora este estudo não teste intervenções, ele reforça quais funções merecem maior atenção em cada fase da doença.
Futuro
10. “Dá para prever exatamente quando a pessoa vai precisar de cadeira de rodas?”
Não com precisão individual. O estudo mostra padrões gerais e menciona a perda da marcha como um marco clínico relevante, mas não fornece uma data exata para cada pessoa.
11. “Depois que a marcha piora, o que passa a importar mais?”
A função de membros, especialmente braços e pernas, tende a ganhar mais peso no impacto funcional.
Ação
12. “Qual é a atitude mais útil para a família agora?”
Observar mudanças reais, documentar perdas funcionais, revisar metas com a equipe e adaptar o ambiente antes de acidentes.
Checklist de agência
Sinais de alerta para comentar na consulta
- quedas novas ou mais frequentes
- necessidade nova de apoio para caminhar
- piora clara da coordenação das mãos
- maior dependência para banho, vestir-se ou alimentação
- perda de velocidade para tarefas simples
- cansaço desproporcional em deslocamentos curtos
Perguntas para levar à consulta
- O que mais está limitando a função hoje?
- Quais metas são realistas para os próximos 3 a 6 meses?
- Precisamos rever fisioterapia, terapia ocupacional ou fonoaudiologia?
- Há indicação de órteses, apoio de marcha ou cadeira para trajetos longos?
- Quais adaptações domiciliares têm maior impacto em segurança?
Hábitos apoiados por evidência indireta ou boa prática clínica
- manter acompanhamento regular
- revisar risco de quedas
- documentar mudanças funcionais
- discutir plano de reabilitação por objetivos
- adaptar o ambiente antes de uma queda grave
O que não fazer sozinho
- suspender acompanhamento porque “a doença sempre vai piorar mesmo”
- trocar dispositivos de apoio por conta própria sem orientação
- ignorar quedas repetidas
- concluir que um achado de grupo define exatamente o futuro individual
Quando buscar ajuda urgente
- queda com trauma importante
- mudança funcional abrupta, muito mais rápida que o habitual
- dificuldade importante para engolir com risco de engasgo
- piora súbita que sugira outra doença associada, e não apenas progressão lenta habitual
O que este estudo/guia NÃO prova
- Não prova que a idade de início seja a única responsável pela evolução. Ela ajuda a explicar o padrão geral, mas não tudo.
- Não prova como um tratamento específico muda a história da doença, porque o estudo não testou intervenção.
- Não prova exatamente o que vai acontecer com uma pessoa individual. Os autores dizem claramente que extrapolar achados populacionais para o cuidado individual é imperfeito.
- Não prova que medidas funcionais tenham o mesmo comportamento em todas as faixas etárias, especialmente nas crianças menores, onde há mais variabilidade.
- Não prova que todos os marcos clínicos após perda da marcha estejam completamente definidos, porque essa fase ainda exige mais pesquisa.
⚕️ IMPORTANTE
• Este conteúdo resume um estudo científico e não substitui consulta médica.
• Se você tem sintomas ou dúvidas, converse com um profissional de saúde.
• Não interrompa ou inicie medicamentos por conta própria.
• Cada pessoa é única — o que vale para o grupo do estudo pode não valer para você.
Referência científica:
RUMMEY, Christian et al. Natural history of Friedreich ataxia: heterogeneity of neurologic progression and consequences for clinical trial design. Neurology, v. 99, n. 14, p. e1499-e1510, 2022. DOI: 10.1212/WNL.0000000000200913.
✍️ Dr. Thiago G. Guimarães
CRM-SP 178.347
Neurologista — Distúrbios do Movimento e Neurogenética
Hospital das Clínicas da FMUSP
Consultório em Pinheiros, São Paulo/SP
Site: https://drthiagoguimaraesneuro.com/
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